quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Quarto 27.

Chegamos no quarto, número 27. Você estava linda, pra variar. Seus cabelos negros refletiam no piso branco, seu vestido quase nem existia mais, de tanta vontade que eu tinha de tira-lo. Minha camisa era da cor do piso, chegava até a ser patético. Você soltou cada botão com a boca, me olhando daquele jeito safado, que só você tem, um olhar malicioso, quente, um sorriso pendendo pro lado direito enquanto você de quatro, ia engatinhando na cama, em cima de mim, provocando e deixando bem claro que aquela noite seria inesquecível, e foi.
Você deixou o tomara-que-caia cair, deitou de costas pra mim, me deixando com essa sua bunda esculpida pelos deuses e pediu: “desabotoa meu sutiã, vai”, eu desabotoei, e beijei bem de leve suas costas, de baixo até em cima, lambi seu pescoço e vi sua respiração alterar, ficar mais calma, mais rápida, mais excitante. Você se virou, me virou, sentou em mim e foi rastejando bem devagar, me encarando com esses olhos verdes e penetrantes, e por falar em penetração, chegamos nessa parte. Quando você deitou, abriu as pernas e todo aquele brilho me ocorreu, o brilho da boceta mais linda do mundo, fiquei sem ação, nenhuma reação veio à tona, fiquei atônito. Vi todas as cores daquele quarto monocromático dançarem diante de mim, enquanto você cavalgava. Deus! Como você cavalga bem. Acabamos, gozamos e rimos. Você inventou de usar o pole dance do quarto, arteira do jeito que é. Nua, foi escalando e sorrindo pra mim, um sorriso mais sincero e infantil dessa vez, o olhar também era mais brando. Escalou tanto que não viu o teto do quarto, bateu a cabeça, e por um instinto humano, foi pegar na cabeça, pra ver onde tinha sido. E como uma fruta podre, ou uma gota de chuva ácida, você caiu. Eu comecei a rir, e você a chorar, gritando desesperadamente que tinha quebrado alguma coisa nas costas. Me preocupei, paguei o motel, te deitei no banco de trás do carro, acendi um cigarro e te levei até o hospital. Lá tiraram um raio-x do seu lindo cóccix, não tinha nada, só alguns traumas isolados na região, nada que alguns desses analgésicos populares não resolvam.
Chegamos na sua casa, fomos pro quarto, tirei minha camisa, você seu vestido. Deitei e você estava escolhendo seu pijama. A luz acesa, você nua com alguns pontinhos roxos nas costas, coisa linda.
-Best boyfriend ever, que porra é essa?
-é um pijama que meu ex me deu.
-e por quê você ainda guarda essa merda?
-porquê é confortável, uai. Sem sentimentos.
-vai se foder.
-vai você. Falando nisso, quero que você vá embora, pra ficar com aquela vaca da Isis, que você tanto conversa.
-beleza, tchau, até nunca mais.
Acendi dois cigarros de uma vez, vesti minha roupa e entrei no carro. Nesse dia descobri que o número vinte e sete me dá azar. E que alguém sempre perde.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

General.


“Não desperdiçarei meu ódio com você”, foi isso que ela disse. Mesmo depois de esmagada pelas minhas lamentações, ela continuava a se fazer de durona. Filha da puta. Ela era um general emocional, conseguia imaginar seus sentimentos lá dentro, de queixo erguido, com uma cara serena e firme, um olhar cruel e uma mão pronta pra matar.
Deixei a casa com o sentimento de impotência, de não ter feito tudo que podia, afinal, eu era um bosta, ou sempre fui, sei lá.
No outro dia, recebi a ligação, aquela que todos temem.
-alô.
-Senhor, aqui é do hospital salamandra, achamos seu número como preferido no dispositivo móvel da paciente.
-que merda é essa? Paciente do quê?
-Ela tentou cometer um suicídio, o senhor poderia estar comparecendo aqui no hospital..-sei onde fica essa porra- desliguei.
Odiava gerúndio e telefonistas, tinha vontade enfiar uma cenoura no rabo de cada uma que fala “o senhor podia estar”.
Cheguei no hospital, falei o nome dela pra recepcionista.
-quarto 308. –ela disse depois de uma cara espantada, de que a coisa estava bem feia.
-ok.
Subi as escadas, andei pelo corredor com as portas numeradas, naquela penumbra assustadora que é todo hospital. Girei a maçaneta, entrei, e lá estava ela: parecendo um cadáver, deitada estritamente reta, com as pernas cruzadas e as mãos sobre o peito.
Cutuquei-a de leve, ela abriu olho e sorriu.
-oi. –disse com dificuldade.
-oi, sabe o quanto eu me preocupei? O que você já aprontou?
-sabe como é, auto piedade.
Naquela hora, eu vi a mulher que eu queria ver. O general estava morto, e ela bem viva.
Cuidei dela por cada segundo naquele hospital, e até por uns dias depois também. Vivia exausto, não conseguia mais escrever, só podia pensar nela, só queria ver ela bem.
Numa dessas manhãs ordinárias de domingo, na cama dela, em mais uma daquelas noites onde eu passei olhando ela a noite inteira, e dormido só quando o amanhecer chega, ela me acordou.
-Mike, acorda.
-oi meu amor.
-Preciso que você vá embora.
Não disse nada, levantei da cama, vesti a calça e a camiseta, acendi um cigarro e fui.
Afinal, o general não tinha morrido, ele só estava dormindo.
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segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Mais um dia.



               Alto, loiro, um porte inigualável, uma cicatriz que lhe atravessava o olho, com duas armas no coldre e uma vontade sangue que se conseguia sentir até o cheiro. Dinheiro, bebida, mulheres e mais de noventa assassinatos nas costas. Esse era meu pai, e eu, provavelmente era sua única fraqueza. Toda noite ele se sentava comigo na frente de nossa casa bem escondida e me contava as histórias (muito boas), de todos os quarenta estados que ele não podia atravessar, e também de quando ele atravessou a Califórnia, reto no deserto até Dashville só com uma garrafa de Rum e uma colt com duas balas. Até hoje, a polícia não sabe onde meu pai está, o velho morreu antes que eles fizessem algo. Morreu de cirrose, bebia demais. A morte do meu velho, não alterou muita coisa no meu destino, não. Naquele lugar, que era bem escondido, se ergueu uma cidade chamada Tombstone. Como era um local difícil de se encontrar, era um dos principais refúgios de bandidos e gente da pior espécie, então a cidade cresceu com esse tipo de gente, e sem alternativas, viraram meus conterrâneos.
                Todas as noites eram inebriadas pelas luzes das portarias do bordéis, e se podia ver com facilidade assassinos como meu pai, andando livremente, no entra e sai dos cabaréis. E eu, como era de se imaginar, segui esse caminho, fui produto da sociedade. A cidade tinha um bar só, se chamava “fim do fundo do inferno” , onde não se bebia em copos, e sim direto nos barris. Confusão, sinuca e carteado de todos os estilos, toda noite era o mal pela raiz.
                Na cidade, havia também, um pouco mais afastado da “zona do caos”, uma capela e um convento, o “Santa Madre”. Na capela, a maioria de “fiéis” eram as putas, que iam rezar para não serem mortas por algum bêbado muito exaltado. A única exceção masculina, na capela, era o padre, que era o único filho da puta que eu conheci que conseguiria se manter puro no meio daquela putaria toda. Era um rebelde da babilônia, uma virgem em Sodoma, ou em Gomorra. Esse cara tinha meu respeito. Toda madrugada, ele saía de sua casa, e atravessava a zona agarrando seu crucifixo, esperando pelo amanhecer. “Senhor, me mantenha longe dessa tinta venenosa, que assina a vida de todas as pessoas dessa cidade, e não me dê agora a colher para eu cavar minha cova. Preciso completar minha missão aqui, Amém”. Ele orava essas palavras por todo o percurso, até chegar na capela.
                Em uma noite, tudo na cidade saiu do controle, e nós ocupamos o convento, e transformamos ele em “Santa Madre Casino”, frequentado só pelo pior da bandidagem, o santa madre era uma extensão do bar da cidade, e o indivíduo só podia ir embora se estivesse bebum.
                Então na manhã seguinte, em sua caminhada, não havia tanta gente na zona, e tudo estava mais calmo, exceto pelos usuais tiros de canhão e o cheiro insuportável de carniça. Ele atravessou a zona, e subindo o pequeno morro, sentiu o cheiro de enxofre, que se mixou com o de carniça, e ele teve vontade de desmaiar, vomitar, morrer, nem ele sabia direito. Quando dirigiu os olhos para a capela ela estava só os frangalhos, as cinzas caíam e seguiam o vento. Estava negra como as trevas e as mentes daqueles pecadores. Seguiu o caminho e entrou no casino, viu todas as feiras que ele ensinou e cuidou com tanto carinho, dançando nuas no balcão do bar. Aquilo era, no mínimo, três vezes pior que Sodoma e Gomorra juntas. Um grandalhão que bebia e arrotava sem parar, o agarrou pelo colarinho.
                -Aqui não é lugar pra gente como você.
O padre orou baixinho a oração de sempre, do caminho, esperando alguma ação do senhor.
                -O quê? Colher, cova? Tá maluco?
Aceitando seu destino, o padre disse:
                -Meu senhor me perdoe por adentrar nesse antro pecaminoso. E caro irmão, eu te perdôo.
                -Esse velho tá de sacanagem comigo.
O grandalhão arremessou o padre pelo vitral gótico, ele caiu ensanguentado no chão pra fora do casino. O grandalhão era ateu, e tinha raiva de qualquer tipo de religião. Apontando a arma para o padre, disse:
                -Religião é ódio, religião é medo, religião é guerra. Religião é estupro, a religião é obscena, a religião é uma puta. – E atirou.
                No final das contas, a tinta venenosa era o sangue do padre, e ele recebeu sua colher para cavar sua própria cova. Ali, era só mais um vagabundo com uma bala na cabeça. Ninguém se importou, o dono da cidade estava caído perto dali, extremamente embriagado.  E lá se foi mais uma noite em Tombstone.

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Café.

Eram dez da manhã, meu celular gritava uma música punk qualquer, parece que tentando me fazer levantar, desesperadamente. Maria estava na cozinha, preparando um café e o almoço ao mesmo tempo. Enquanto eu lhe dava bom dia só de cueca na cozinha, acendi um cigarro enquanto apreciava aquele olhar morto pela manhã, querendo vida, com Maria sorrindo, deus! Que sorriso lindo, grande e expressivo, e era lá que eu pagava meus pecados, toda santa manhã. Ela me deu uma xícara de café, tomei um gole e cuspi.
_Que merda é essa, Maria?
_Café?
_Não chegou nem perto. -Respondi, virando as costas.
De dentro do banheiro conseguia escutar sua respiração chorosa e abafada na cozinha, mixando-se com o tilintar das panelas. Liguei o chuveiro, e deixei a água levar toda a culpa de ter feito ela chorar. Maria era o tipo de mulher que não foi feita para chorar, era linda e amável, com grandes olhos castanhos, superficiais e cheios de amor, e um corpo que me fazia querer fodê-la a qualquer segundo. Saí do banheiro, me enxuguei, vesti a calça jeans e fui almoçar. Ela estava em pé atrás da pia, lavando algo, abracei-a por trás e sussurrei: "Me desculpa, vai. Por quê você não vira meu almoço agora hein?", senti sua bunda arrebitando e vi seu corpo arrepiando e o sorriso sincero e safado de sempre. Levei ela para a cama de solteiro do apartamento, e fiz como todas as outras vezes, ela nunca se cansava daquilo: chupar, gozar, foder, gozar, foder, gozar, e aí gozar mais uma vez. Encaixávamos sexualmente mais que o zeppelin na década de setenta, era o expurgo de todos os venenos exteriores, a redenção, a limpeza. Depois que acabamos, ela foi terminar o almoço e eu terminar de me arrumar de novo. Descobri que tinha perdido minha carteira em um bar ou lanchonete, sei lá. Tive que pedir dinheiro para ela, pela terceira vez aquela semana, era uma quinta-feira quente e abafada.
_Amor, preciso de vinte reais.
_Cadê seu dinheiro?
_Perdi minha carteira ontem.
_De novo, Heitor?
_Vai emprestar? Preciso ir trabalhar.
_Por quê você tá tão frio comigo? Eu te fiz algo? Eu não sou o suficiente pra você? -Disse ela, quase chorando.
_Não, meu amor. Só tô estressado algumas coisas do trabalho. -Menti descaradamente. Eu e ela sabíamos que não era isso.
Ela me deu o dinheiro e voltou pra lavar a louça do almoço, cujo eu não comi.
Saí do trabalho, fui para o bar, encontrei uma velha amiga do colegial, bebemos algumas cervejas com meus vinte reais, levei ela pro canto do bar, e comi ela ali mesmo. Sempre fazia esse tipo de coisa, sempre quando dava, e de um jeito bem cruel, e quase involuntário, eu não conseguia sentir culpa.
Logo que abri o portão de casa, senti um arrepio, um aviso de que algo tinha acontecido, nosso cachorro não veio correndo e ela não disse para ele "Quem chegou?", adentrei a cozinha e ele estava deitado, chorando baixinho, com as patas em cima de uma folha de caderno dobrada. Abri.

"Querido H., antes de tudo, para não se surpreender, quero te dizer que me enforquei. Sei o que você faz por aí, sei quantas mulheres já comeu, sei até quantas cervejas já bebeu. Sei também que te amo mais do que um dia eu entenderei, por isso me sacrifiquei por você. Fui até onde aguentei, até onde sua grosseria me deixou ir. Eu aguentaria mil anos, se eu fosse a única, mas você não pode ser de uma só, e isso é tudo que eu sou: só mais uma. Uma bem especial, talvez, mas só mais uma. Você não é homem o suficiente para ser capaz de amar, e eu não fui mulher o suficiente para tentar te ensinar. A única lição que eu te deixo de verdade, que você poderá usar para sua vida é te fazer virar homem e pensar antes de cometer seus pecados, porquê meu sorriso não estará mais lá, para pagar por você. Provavelmente agora estou do dentro do fogo, do lado do tinhoso. Tentei ser uma boa mulher, eu juro.
 P.s.: Tem um café decente na cafeteira.

                                                                     Com amor e vontade de ter sido mais forte, Maria."


Entrei no quarto, e a vi, pelada, roxa e um pouco vomitada, balançando macabramente ainda, com a corda amarrada na barra que eu comprei para fazer abdominais (sabia que aquela porra que nunca serviu para nada, ia me foder um dia). Fui para a cozinha, peguei a cafeteira, a xícara dela e servi o café. Antes de tomar, ouvi uma voz medonha me dizendo: "Pegue um lugar dentro do fogo com ela.", tomei mesmo assim. O gosto era ótimo, mas meu corpo rejeitou. "Sinto falta do café ruim.", eu disse. Caí. Tudo escureceu. E de repente só via chamas.

domingo, 8 de setembro de 2013

Não, espere.


                A moça continuava deitada nua na mesa, enquanto o bastardo continuava a acariciar-lhe o corpo, completamente estendido, com as pernas quase juntas, com as costelas à mostra. “Isso até me excita de alguma forma”, disse ela, com aquela voz rouca de quem fuma à uns cinco anos, praticamente sem cessar. Os cabelo loiros, que saíam da mesa, formavam um caleidoscópio, refletidos pela luz do abajur que era meia fase, com a do teto, que era fluorescente, e dos olhos de seu provável assassino, que brilhavam sem cessar, observando seu brinquedinho para ser Deus. Ele encostou o dedo em sua bocetinha compacta e bem saliente, parecendo um morro, com as vegetações bem aparadas. Ela abriu a boca, gemeu de prazer, graças a mão suja de ira, que nesse momento já enfiava o dedo e vasculhava cada centímetro da ampla vagina. A vítima goza, se mija toda, o executor ri.
                Na vitrola despedaçada, o som de Johnny Cash explorava o lugar, como se cada onda sonora fizesse Jane sentir um orgasmo, cada nota musical do violão de Johnny fazia ela arrepiar de prazer, enquanto, da mesma maneira das ondas, os dedos de Larry exploravam o interior daquela vagina produzindo as notas musicais dos gemidos de Jane, até o clímax se aproximar de novo, e quando Jane já se contorcia, já apertava as bordas das mesas, o desgraçado pega o bisturi, na mesa de apoio,  a corta a barriga bem de leve, ela grita com o prazer da dor.  Se mijou, a urina atingiu o corte, gritou de agonia dessa vez.
                O potencial assassino pega um pano vermelho, enxuga o líquido laranja da barriga da jovem, e diz: “O incrível, é quem eu nem te amarrei. Você é uma puta barata mesmo, e nada mais que isso. E é por isso, só por isso que você vai morrer”. Depois de enxugar toda a barriga dela, ele pega um taco de beisebol e quebra a vitrola, já caindo aos pedaços. Pega um caco dos estilhaços da capa de acrílico, que protege o disco, e caminha na direção da mulher lá estendida. No caminho, passa por uma mesa de canto e pega seu óculos da sorte. Chega perto dela, e a luz, por algum defeito pisca, como nos filmes de terror, “Melhor assim, quero que sinta tudo de olhos bem abertos, misturando todos os sentidos”, comenta o assassino. Enquanto ele a olhava com os óculos escuros e redondos, ela podia ver seu próprio reflexo e o fitava sem cessar, o assassino sorriu e desferiu 13 golpes, uns rápidos e vigorosos, outros lentos e apáticos. No décimo quarto, que tinha como destino os olhos, na velocidade do ato, que era a de um piscar de olhos, quando a ponta ensanguentada do caco se aproximou, ela fechou os olhos.
                Acordou. Estava em casa com seu marido do lado, deitado de costas para ela, em sua cama. Pensou que era ótimo estar em sua própria cama, em sua casa, do lado amor de sua vida. Virou de lado e quando percebeu em meio a meia-luz do abajur não acreditou, não podia ser, não podia! Era o assassino, com os óculos escuros e aquele sorriso maníaco. Ele a olha profundamente nos olhos, aponta a arma para o marido e diz: “Vire-o”, ela virou, e quando viu, o cara tinha 13 furos na barriga e um no olho. “Sonhos doces são feitos assim, meu bem.”, disse o bastardo. E a apagou com uma coronhada.
                Duas horas depois, ela abre os olhos com dificuldade, consegue ver alguns borrões que pareciam pessoas bem estranhas, mascaradas e com roupas estranhas. Ela tenta olhar ao redor, mas seu pescoço dói muito. Ela tenta gritar, mas a voz já lhe falha e a boca está amordaçada. Quando consegue ver com clareza está dentro de um porão sujo, com várias latas, cheias de partes do corpo humano, cada uma em seu devido lugar na prateleira, imitando o formato de corpos como se fossem palitinhos desenhados, com o que pareciam ser os integrantes do slipknot. Ela fica apavorada, arregala os olhos, com todo o pavor estampado neles. O assassino chega, com a feição séria, e diz, poupando palavras: “Você é minha, nem que para isso eu tenha que te enfeitiçar. Você está  vestida em mim, com todos os anéis, todos os colares, até todas as calcinhas. Eu te amo, não queria deixar isso se construir dentro de mim, mas não tive escolha”. E atira. Dois tiros, um em cada seio, e um bem no meio dos olhos, que continuaram ligeiramente abertos. “Agora você é só uma memória morta, dentro de mim”.
              Larry acorda, suando e verdadeiramente desesperado. Acende um cigarro, e anda a casa inteira, para tentar esquecer, percorre cada cômodo: “Sala, ok. Quarto, ok. Cozinha, ok. Sótão, ok. Porão, o corpo ainda tá aqui. Quarto, ok. Ufa! Ainda bem que foi só um pesadelo. Não, espera!”.

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Irrisão.




Tony Callazans era um cara bem poderoso, procurador da justiça (não a convencional), e não tinha muita coisa com que se preocupar. Saía com as melhores mulheres, provava das mais doces bocetas, dirigia os melhores carros, fumava os melhores cigarros, resumindo, vivia a vida que todo proletário e escravo do sistema gostaria de viver. Porém, tudo isso tinha um preço, a dupla colt em sua cintura não se deixava enganar. Callazans não podia ter piedade, e nem se pudesse teria. Era realmente um procurador de justiça, justiça que dependia do tanto que se podia desembolsar. E aos poucos, Tony foi aprimorando seu serviço e se transformou no melhor matador que aquela região já vira: o mais rápido, o mais silencioso, o que menos fazia perguntas (talvez porquê era o que mais faturava). Toda vez ele pagava a conta, toda vez ele fumava um cigarro que era amaciado pela bebida que descia doce. Um dia whisky, um dia vodka, um dia cerveja importada, um dia putas caras e champagne e, quem sabe, um dia no inferno, pois só tinha um ponto negativo dentro dessa vida perfeita de Tony, nem suas habilidades, nem sua malícia, nem sua maldade, poderiam se livrar do garçom mais exigente que existe. Ele tem vários nomes, você, Tony e eu sabemos exatamente de quem, ou do quê se trata.
                “Talvez, ele não seja tão ruim assim. Talvez lá não seja tão ruim. O caminho deve se parecer com um elevador em disparada para baixo. O clima deve ser extremamente quente, mas já estive em lugares piores. O inferno é uma extensão da terra, um cigarro mal fumado, ou uma puta mal comida, não faz diferença. Pelo meu período de teste aqui, devo me sair bem lá. Agora seja homem, e puxe logo esse gatilho esse gatilho, filho da puta!”, disse Tony com a arma apontada em sua cabeça por Dick Fish. Dick chamou a conta. O garçom veio cobrar. Callazans decorou a parede do beco de vermelho-escuro e escárnio: mais uma obra diabólica para se colocar na parede do bar. O garçom nunca descansa.

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Jade.

        Jade era um nome um pouco diferente, só não tão diferente quanto sua própria cabeça, que era completamente desmiolada! Tinha trinta e cinco anos, um corpo de dezessete e uma mente totalmente embriagada, talvez não só pelo álcool, mas também pelos fantasmas de uma vida inteira, fantasmas que aquela noite a assombraram como nunca, talvez excitados pela enorme quantidade de cerveja ingerida.
         Conheci ela de um jeito um pouco patético, confesso. Era quase final da noite, eu estava em um desses bares legais, daqueles que consigo me sentir perfeitamente encaixado: música alta, gente estranha, muitos, mas muitos cigarros e cerveja. Era um lançamento de uma coletânea de alguns livros e contos de merda, esse dia. A cerveja estava muito cara, ou eu muito pobre, a mesa de sinuca estava ocupada por algumas bundas flácidas de mulheres querendo se insinuar para uma rodinha de "escritores malditos", a banda tocando era muito boa para uma sonoplastia tão ruim, o lugar estava muito escuro, e nas duas divisórias do banheiro tinham pessoas se atracando (juro que não consegui distinguir se eram brigas ou amassos), com todas essas condições, só me restava fumar um cigarro lá fora. Eu estava tentando parar, mas as vezes as situações da vida te obrigam a causar sua própria morte, seja de uma maneira lenta e totalmente deliciosa, ou de uma forma brusca e totalmente indolor, e aquela noite tive a incontestável prova disso.
Enquanto fumava meu cigarro que roubei do maço do meu amigo, junto com ele, Jade aparece, perseguida por um gordo, que parecia  ter vindo direto do inferno, mas me parecia totalmente simpático:
         _Jade, pelo amor de satã, não vá embora assim, não quer que eu dirija pra você?
         _Sai daqui tiozinho, sei bem me controlar, porra!
Então ela entrou no carro e colocou pra tocar no som uma música bem animada enquanto o gordo infernal dizia para nós pedirmos para ela colocar um som para mante-la ali mais um pouco, depois de feito o pedido, disse: "Não aguento mais isso não, se quiser morrer, que morra." Sei que ele não falava sério, sei que ele realmente queria cuidar dela, mas acabou indo embora mesmo assim. Então Jade sai do carro, e me presenteia com a dança mais sincera que já vi, e me chama para dançar com ela:
         _Não sei dançar não, moça.
         _E daí? Vem logo! -Enquanto isso meu amigo, que já estava com uma garota, ficou me incentivando, junto com a garota dele: "Vai Michael, vai seu merda", e eu acabei indo.
Entrei em um espaço paralelo ali com Jade, naquela dança dança embriagada e desajeitada, um presente dos Deuses, ou de Jade, sei lá eu. Jade então volta para o carro, procura algo em sua bolsa, um cigarro talvez, pois já tinha me roubado dois! Ela faz alusão de querer ligar a chave na ignição, eu tento a enrolar mais um pouco:
         _Vem dançar mais um pouco, vem.
         _Não, tenho que ir pra casa, cara.
         _Quantos anos você tem?
         _Trinta e cinco.
         _Tá procurando o quê aí? Tem namorado ou namorada? -Ela riu.
         _Não sei ainda, mas tenho um namorado e ele mora do lado da minha casa.
         _Então ele deixa uma moça linda como você é, vir aqui sozinha e se sujeitar a isso?
         _É, tanto faz. -Disse Jade, um pouco irritada.
         _Certeza que não quer que eu dirija pra você?
         _Não. -Quase fechou a porta na minha mão, ligou a ignição, e saiu ziguezagueando com o corsa branco.
Cheguei em casa, ainda um pouco alterado, eram quase seis da manhã. Me despenquei na cama. Bebês não dormem tão bem assim. No outro dia, lá pelas três da tarde, acordo, acendo meu cigarro e procuro algo para o almoço, ligo a tevê (raramente faço isso), e começo minha obra-prima: Miojo com queijo e bisnaguinha frita na manteiga. Uma notícia me chama atenção no noticiário: "Mulher de trinta e cinco anos morre em cruzamento da av. caralho a quatro. Olhei meu cigarro e disse: "Prefiro meu próprio jeito de me matar, lento e delicioso". Vá em paz Jade.