Sala Vermelha.
Então abriram-se as portas
onde estão armazenadas
em todas as docas
figuras dos infernos estampadas
membros em decomposição
corações em colapso
sente a fadiga então
em um corpo escasso
de funcionários
médicos e enfermeiros
enfermos e
doentes de dar dó
gente sem poder ficar pior
seus corredores são uma passagem
onde correm dores sem massagem
talvez a cardíaca
geralmente é a última que fica
registrado
no laudo do caso
escrito no prontuário
que guardado ali no registro
perdidos em arquivos esquecidos
mínimos intrínsecos dentro de cada coração
coração de gente
coração de gente doente
que usa aparelhos de última geração
onde baratas transitam no chão
o cigarro na mão de quem fuma lá fora
é o retrato que a porta da doca
não se fecha agora e nunca vai ceder
porque enquanto nasce gente
gente vai se adoecer
eu fiquei entorpecido com tanta dor
de gente que dali não tem mais pra onde ir
um velho entra com crise úlcera grave esse é o quadro
cirrose hepática, pulmão fudido e da família o descaso
faz o procedimento de pro ce vi menos
dura mais duas horas com soro na barriga
e depois é arrastado numa maca sem vida
lugar maldito que salva e implora
povo bendito que paga e implora
espero nunca ter que te ver na minha vida inteira
mesmo que a enfermidade seja verdadeira-
mente grave
nem que eu caia de uma ribanceira
muito obrigado pelo cuidado enfermeira
e graças a Deus
Adeus Sala Vermelha.
segunda-feira, 19 de março de 2018
Morte.
E lá estava eu, dentro do banheiro daquele quarto em quase-penumbra ajudando o velhinho quando olha pela janela articulada no corredor e lá está ela, parada, estática, letárgica, olhando pra mim: assim com um quase sorriso, com a cabeça e o capuz preto inclinados pra esquerda como um gatinho curioso. Me assustei, arregalei os olhos, busquei o fôlego, e busquei ficar calado pra não assustar o seu Sebastião (o velhinho). Acabamos, deitei ele na cama e saí lá fora, com as pernas tremendo, as mãos suadas e o medo exalando em meus poros. -Boa noite-, ela me disse. -B-boa noite (?)-, respondi, incrédulo. A voz era grave e macia, uma mistura de Maria Gadú com Ana Carolina. Desenvolvemos um diálogo breve de como eu não precisava ter medo, e como ela começaria o trabalho de acalmar o Tião para fazer o caminho mais leve e tranquilo. Perguntei porquê ela não podia simplesmente leva-lo, ela respondeu que ele tinha bônus com o cara lá de cima e que ele precisava estar completamente pronto. Naquela noite Tião não acordou mais pra ir no banheiro, sua Glicemia bateu 42 (o normal é 100+), se mijou todo, se cagou todo, um arregaço. Quando o acordei pra dar seu banho cotidiano, mesmo todo caga, mijado, onde sua dignidade deveria estar bem menor que sua glicemia, ele me dá um sorriso com os olhinhos fechados e fala "Bom dia, meu filho, dormiu bem? Vamos lá." Lembrei da morte me dizendo que todos nós vamos, todos nós temos alguns créditos e temos exatamente o que merecemos. Que baboseira sem fim, achei que fosse mais dramático, mais poético. Achei que a morte fosse mais intensa, achei que fosse cruel. Mas é só mais um final de ciclo, apenas mais um termina-começa tedioso.
Acendi um cigarro do lado da lápide do Tião, no epitáfio tava escrito: "Obrigado meu Deus.", Dei uma risada seguida de tosse.
"Vai com Deus meu velho, Boa viagem."
Olhei pra trás, lá estava ela, a uns 7 passos me olhando, dessa vez sem sorrisinho ou simpatia. Agradeci, pelo menos será rápido e sem blablablás. "Boa Noite", me disse ela com os olhos brilhando em vermelho e um sorriso maníaco, a foice mais afiada que uma espada samurai. Sorri e cumprimentei de volta. "Boa noite, velha amiga".
Acendi um cigarro do lado da lápide do Tião, no epitáfio tava escrito: "Obrigado meu Deus.", Dei uma risada seguida de tosse.
"Vai com Deus meu velho, Boa viagem."
Olhei pra trás, lá estava ela, a uns 7 passos me olhando, dessa vez sem sorrisinho ou simpatia. Agradeci, pelo menos será rápido e sem blablablás. "Boa Noite", me disse ela com os olhos brilhando em vermelho e um sorriso maníaco, a foice mais afiada que uma espada samurai. Sorri e cumprimentei de volta. "Boa noite, velha amiga".
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