sexta-feira, 8 de outubro de 2021

Visão.
Entre a escada e a cruz eu me encontro
a corda agora amarrada em meu pescoço
se iguala àquela história que conto
que nos cantos eu sento e me torço
a cadeira amarela apoia as pernas e o torso
de um corpo hoje exposto
à todo tipo de mal gosto e desgosto
de bares e lares, agora malabares
entre ser o pai e o marido mais doce do mundo
ou o bêbado vagabundo imundo
de bermudas e mocassim no fim
de semana de sol
ou calças jeans e camisetas pretas enfim
de mulheres no lençol
à minha mulher mulher no lençol
será que era só uma fase? será o eu do passado
gritando dentro de mim? ou apenas mais um reflexo
dessas intermináveis e agradáveis noites sem dormir? 

sexta-feira, 25 de setembro de 2020

Soneto da Esquizofrenia.

Converso comigo mesmo dentro daquela sala suja

Olhando pra trás percebo que a vida imunda

parece um desinfetante de rosas

mortas, murchas, vomitando prosas

sobre as flores que morreram naquele quintal

na casa da esquina que eu vivi e matei parte de mim


A fênix negra não vai mais renascer aqui

o escravo e o mestre não estão mais nem aí

O cigarro e o pigarro e nem o escarro

já não são a parte principal do ato


Fecham-se as cortinas, apaga-se o teatro

lá me vejo no escuro, em total escuridão

interna e externa, sinfonia da destruição

elas me rodeiam, urrando e gemendo antigas

canções

um tornado de almas, estariam elas dentro ou fora

das orações?


Abrem-se as cortinas, o sorriso amarelo brilha

como se o dono ainda tivesse alguma vida

Sejam bem vindos senhoras e senhores

infinitas horas de penhores

entre dona morte e eu em mesas de bares

e lá vou eu, me perdendo em olhares 

antes mulheres, hoje fantasmas

o destino firme, hoje me escapas

quase como o último cigarro 

o último

cigarro

que com trêmulos dedos

acendi e 

deixei

cair.


Respeitável público, queiram aceitar de coração

o sincero e cordial adeus

de... quem mesmo?

como vou me despedir mesmo?

se quem não me conhece

nem sabe que eu mesmo não me conheço?

sexta-feira, 11 de setembro de 2020

Fantasmas.


Imensidão de silos
e máquinas e terra
vermelha.
meio do cerrado bandido
peões, capacetes e serras
estreitas.
A paisagem parece estática
folhas caem, pinheiros e araucárias
as botas sujas de poeira
também vermelha
parecem em um dia
contar a história de muitas vidas
perdidas, no meio do mato
enquanto eu ainda trago
e me embriago
com os desgraçados fantasmas
do meu amargo passado.

segunda-feira, 19 de março de 2018

Sala Vermelha.
Então abriram-se as portas
onde estão armazenadas
em todas as docas
figuras dos infernos estampadas
membros em decomposição
corações em colapso
sente a fadiga então
em um corpo escasso
de funcionários
médicos e enfermeiros
enfermos e
doentes de dar dó
gente sem poder ficar pior
seus corredores são uma passagem
onde correm dores sem massagem
talvez a cardíaca
geralmente é a última que fica
registrado
no laudo do caso
escrito no prontuário
que guardado ali no registro
perdidos em arquivos esquecidos
mínimos intrínsecos dentro de cada coração
coração de gente
coração de gente doente
que usa aparelhos de última geração
onde baratas transitam no chão
o cigarro na mão de quem fuma lá fora
é o retrato que a porta da doca
não se fecha agora e nunca vai ceder
porque enquanto nasce gente
gente vai se adoecer
eu fiquei entorpecido com tanta dor
de gente que dali não tem mais pra onde ir
um velho entra com crise úlcera grave esse é o quadro
cirrose hepática, pulmão fudido e da família o descaso
faz o procedimento de pro ce vi menos
dura mais duas horas com soro na barriga
e depois é arrastado numa maca sem vida
lugar maldito que salva e implora
povo bendito que paga e implora
espero nunca ter que te ver na minha vida inteira
mesmo que a enfermidade seja verdadeira-
mente grave
nem que eu caia de uma ribanceira
muito obrigado pelo cuidado enfermeira
e graças a Deus
Adeus Sala Vermelha.

Morte.

E lá estava eu, dentro do banheiro daquele quarto em quase-penumbra ajudando o velhinho quando olha pela janela articulada no corredor e lá está ela, parada, estática, letárgica, olhando pra mim: assim com um quase sorriso, com a cabeça e o capuz preto inclinados pra esquerda como um gatinho curioso. Me assustei, arregalei os olhos, busquei o fôlego, e busquei ficar calado pra não assustar o seu Sebastião (o velhinho). Acabamos, deitei ele na cama e saí lá fora, com as pernas tremendo, as mãos suadas e o medo exalando em meus poros. -Boa noite-, ela me disse. -B-boa noite (?)-, respondi, incrédulo. A voz era grave e macia, uma mistura de Maria Gadú com Ana Carolina. Desenvolvemos um diálogo breve de como eu não precisava ter medo, e como ela começaria o trabalho de acalmar o Tião para fazer o caminho mais leve e tranquilo. Perguntei porquê ela não podia simplesmente leva-lo, ela respondeu que ele tinha bônus com o cara lá de cima e que ele precisava estar completamente pronto. Naquela noite Tião não acordou mais pra ir no banheiro, sua Glicemia bateu 42 (o normal é 100+), se mijou todo, se cagou todo, um arregaço. Quando o acordei pra dar seu banho cotidiano, mesmo todo caga, mijado, onde sua dignidade deveria estar bem menor que sua glicemia, ele me dá um sorriso com os olhinhos fechados e fala "Bom dia, meu filho, dormiu bem? Vamos lá." Lembrei da morte me dizendo que todos nós vamos, todos nós temos alguns créditos e temos exatamente o que merecemos. Que baboseira sem fim, achei que fosse mais dramático, mais poético. Achei que a morte fosse mais intensa, achei que fosse cruel. Mas é só mais um final de ciclo, apenas mais um termina-começa tedioso.

Acendi um cigarro do lado da lápide do Tião, no epitáfio tava escrito: "Obrigado meu Deus.", Dei uma risada seguida de tosse.
"Vai com Deus meu velho, Boa viagem."
Olhei pra trás, lá estava ela, a uns 7 passos me olhando, dessa vez sem sorrisinho ou simpatia. Agradeci, pelo menos será rápido e sem blablablás. "Boa Noite", me disse ela com os olhos brilhando em vermelho e um sorriso maníaco, a foice mais afiada que uma espada samurai. Sorri e cumprimentei de volta. "Boa noite, velha amiga".

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Parapeito.

Ouvindo algum rockstar morto, aqui tô eu de novo, sonhando. É uma merda sonhar, porquê eles podem me ouvir, podem me ver sem ao menos estarem perto de mim.
Suas máquinas e soldados podem sentir o medo como todos aqueles felinos selvagens que eles foram responsáveis por dizimar e extinguir da face desse planeta carcomido que vivo.
Em minha juventude, uma jovem incerta certa vez me presenteou com um dos melhores textos que já tive o prazer de me deleitar: era sobre um jovem que tentava suicídio enquanto implorava e gritava por sua mãe, no parapeito de um prédio. Mas a história não era o melhor. A construção sim. Parece que sua construção era claustrofóbica, desesperadora, como se cada caractere fosse colocado ali como cada tijolo do prédio que o jovem se encontrava. Nunca fui muito fã do suicídio como método de saída, mas cada um é cada um. Mas aquele texto é mais bonito que qualquer coisa que venha a escrever.
Sentado no meu calabouço eu vejo todas aquelas telas e programas de hackers que eu construí para batalhar com literatura todo um sistema que eu ainda fazia parte. Literatura? SIM, LITERATURA. É como bater em uma metralhadora com um graveto. O problema é que cada vez mais loucos sentem vontade de pegar essa merda de graveto e batalhar a metralhadora.
Esse era meu serviço. Levar jovens anarquistas a pegar o graveto. Isso mesmo, como cachorrinhos. Mas nem os cachorros raivosos que sabiam atirar sabiam disso, por isso me escondia, como um lunático. O grande dilema moderno: faço um caralho de coisas pra ganhar um dinheiro absurdo e não ter onde gastar. O beatnik-pró-governamental-moderno era o que eu era. Patético, cada vez mais gordo, mais inteligente, mais lunático, cada vez mais acreditando no papel que eu criara.
Um fatídico dia me vi sendo invadido pelos porcos de fuzil, máscara e farda negra, prontos pra me fuzilar, procurando a porra do graveto. Mas era lógico que eu não tinha um graveto. Eu tinha metralhadora, e sabia usar. Say hello to my big friend (ra-ta-ta-ta). Ganhei algum tempo, subi as escadas, as velhas escadas do calabouço até a cobertura cheia de antenas analógicas (nem lembrava que elas existiam).
Os tiros acertavam tudo, menos eu. Me sentia um fantasma de qualquer filme de ação pastelão dos anos 2000. Cheguei ao Parapeito. Tentei de tudo para convencer os tiras que eu estava do lado deles, mas eles disseram que todos tentavam o mesmo. Era lógico, eu criei a porra do manual. “Negue tudo, completamente, será sua única chance de sobreviver”. Mas não, quando alguém negava e dizia que estavam ao seu lado, era o código de “me matem, sou anarquista”. Criei as regras, mas esqueci do código de segurança, 200 anos e eu não o fiz. “Tão inteligente, mas tão burro”, lembro da minha mãe dizendo. Era a frase preferida dela.
Pedi pra fumar um cigarro, eles deixaram. Minha metralhadora já estava no chão e a deles apontada pra mim, mesmo assim senti uma cumplicidade ali, de colegas de trabalho, ou algo assim.
Acabei o cigarro.
joguei ele no chão.
Estão esperando algo épico, né?
Não vai acontecer nada.
Eu só lembrei do texto da menina, o mesmo desespero, a mesma claustrofobia, a mesma pontuação grudada uma na outra. A mesma lembrança da mamãe.
Gritei a minha e me joguei.
Acordei, tinha 21 anos e morava na casa da mãe. Ah, não. Fui na área, acendi um cigarro e pensei o quão a minha vida era patética. Mas fiquei feliz: não era só a minha. Escrevi um texto pra mim mesmo no futuro e fui fazer um café. Agradeci aos céus a calmaria patética de cada dia. Cada um luta com o que tem.

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Certeza.

É fácil falar da morte
enquanto se está vivo.
é fácil reproduzir cegamente: "A única certeza da vida é a morte".
sem ter certeza de nada.
Você tá vivo.
Seu coração ainda bombeia sangue
pro seu pau
pro seu pé.
Seu pulso ainda pulsa
o pulsar dos pulsos cortados
o pus que sai
quando inflama a ferida
é nojento
é vivo.

Já se imaginou por dentro e viu o quão podre e nojento você é?
Essa coisa horrorosa que te compõe
é vida. Engraçado né amigo?

Então antes de reclamar e jogar a culpa na morte como uma putinha, dizendo que ela resolve tudo, viva, palhaço. Você nem sabe se ela existe mesmo. Você nunca morreu. Ou já tá morto por dentro?