Entrei no bar e pendurei meu casaco no balcão.
-Me vê um whisky aí.
As mulheres me olhavam, não sei se por interesse, ou por desprezo. Quase sempre ser um escritor solitário dá certo com elas. Acho que é instinto materno de quer cuidar de alguém/algo.
O dia era frio, o que não era normal na cidade, afinal era um calor infernal todo santo dia. Mas sempre tinha a semana onde a população nativa pagava seus pecados, e como fazia frio!
Meu whisky chegou, do jeito que eu queria, sem gelo, o copo e a garrafa, um do lado do outro, alinhados. O garçom sabia, sempre bebia ali. Olhei em volta do bar, e não vi nada mais que o esperado: cadeiras e mesas amarelas com marcas de cervejas estampadas, algumas eram vermelhas com outras marcas, fazendo assim a sintonia do “não tô nem aí pra sua marca, só quero povoar meu bar”, do proprietário, o que não deixava de estar certo quanto a isso, ninguém se importa com a cadeira, ou a mesa. Os velhos jogadores ali ganhando uma boa grana na mesa de sinuca, dos patos, como bom alvo que eram. As coroas vestidas como se tivessem em um parque aquático querendo mergulhar em alguma piscina de porra dos velhos que ganharam o dinheiro ali. O cheiro de urina emanava dos banheiros, que se mixava com o de cerveja impregnado em cada um ali. Eu me sentia em casa.
Dei mais uma olhadela em volta do bar e não acreditei no que vi. Não. Não era possível. Uma jovem, que parecia Londrina, ruiva, magra e de cachecol. Ruiva. RUIVA. Ela sentou no balcão, na outra ponta.
-Uma garrafa de vinho, quente. Por favor.
Ali, na minha vista, com o meu garçom, meu bar. As pessoas não davam a mínima.
Me aproximei.
-Esse vinho daqui não e muito bom não, moça.
-Desculpa moço - ela disse, ironicamente - eu bebo sozinha.
-Mas você é muito bonita pra estar num lugar como esse.
-Quem liga? Você viu alguém ligando? Eu não...
-Eu ligo. – O álcool me atacou – lá em casa você se encaixaria melhor.
-Esperava mais de você, amigo. Com toda essa pose de solitário independente, achei que sairia algo melhor que essa cantadinha. Essa aí eu esperava de qualquer velho aqui. Agora vai lá beber e me deixa beber aqui.
E me afastei.
-Eu tava brincando. – Ela gritou – volta aqui, você também é muito bonito pra estar aqui. Sua casa é longe daqui?
-Um pouco, uns 30 minutos de ônibus.
-Ônibus? – ela riu – vamos andando, o clima tá muito bom pra ser desperdiçado.
Fui só porque ela era ruiva. Eu era um cuzão, morria de medo de ser assaltado, e eram umas onze da noite. Fui andando com ela, e com o cú na mão.
-Então você fica no bar esperando pra conquistar alguém como eu e levar a moça de ônibus pra sua casa?
-Sempre funcionou, mas em geral são coroas fedidas. Mas você, você é diferente. É como ganhar na mega sena.
-Ah, deve usar isso com todas.
Ela sorriu.
Puta
que
Pariu.
Era o sorriso mais lindo, ou um dos mais lindos, que eu já tinha visto.
-Acredite ou não, no caminho pra casa, eu não costumo dizer nada.
-Mas hoje você disse, nossa, tô lisonjeada.
E ficamos quietos por uns dez minutos. Ela quebrou o silêncio:
-Não vai me abraçar não? Tá frio, babaca, não tá vendo? – E riu de novo.
Abracei-a e senti o perfume doce e vencido, mixado com o cheiro da pele, o que acusava que ela já não tomava banho fazia algum tempo.
Mas aquele cheiro me lembrava minha casa, meu lar. Onde eu queria ficar por muito tempo.
Conversamos mais um pouco, sobre coisas aleatórias, eu já ia ficando desinteressado, quando ela perguntou meu nome.
-Michael, e o seu?
-Se escreve mikael ou Michael?
-Qual a diferença?
-Um te faz um bonitão conquistador, e o outro um dos velhos daquele bar.
-Os dois me definiriam, se quer saber. – E ri. – e o seu, como é?
-Vênus. Se rir apanha.
Eu ri, é lógico. Ela veio me dar um tapa, eu segurei e disse “seus movimentos são lentos demais.”, e a beijei. A boca dela tinha uma sintonia com a minha que eu nem precisei me esforçar pra me encaixar, peguei em sua bunda, apertei com vontade, ela me abraçou mais forte e ficamos nesse amasso por um tempinho. Mas aí vi que era muito tarde e que tinha que andar, antes que achasse algum drogado que roubasse meu celular. Forcei um arroto e ela me afastou.
-Eca. Seu nojento.
Me desculpei, mas por dentro comemorando. “deu certo! Eba!” que babaca eu sou.
Apertei o passo e chegamos em casa.
-Caramba você mora perto no inferno mesmo.
-Aqui é o inferno.
Eu tranquei a porta, e ela tirou o cachecol. Uma gigante cicatriz brotava do seu pescoço, e ela se adiantou à minha pergunta.
-Meu padrasto passou uma faca na minha garganta, enquanto me fazia de refém. Ele levou 3 tiros na cabeça. E eu sobrevivi, essa talvez é a maior tragédia.
Ela tirou as blusas e a calça, ficou só calcinha.
-Quer que eu fique pelada?
-Só se você quiser.
-Seguinte, tô muito cansada pra trepar. Se quiser me ver pelada, fique à vontade. Mas trepar eu não vou não.
-Tudo bem. Deixe-me ver essa boceta aí.
Ela tirou a calcinha.
A boceta dela sorriu pra mim.
-Quer beber mais? – Eu disse.
-Não vai adiantar, cara. Beber mais só vai me deixar mais morta ainda.
-Não vou te comer mais. Só quero alguns minutos de conversa bêbada com você.
-Sua primeira boa jogada da noite. Pega o whisky lá.
Bebemos meia garrafa. Eu estava nu e ela também, embrulhados no edredom. Foi aí que eu percebi os olhos. Os dela. Eram castanhos, ou verdes. Dependia da hora e da minha sobriedade, que oscilava.
Capotamos. Eu ainda tive tempo de fumar um cigarro e observa-la dormindo. Aquilo tinha valido a noite. Deitei de conchinha e capotei. Comecei a sonhar com um boquete, a moça era desconhecida, mas chupava muito bem. Levei um tapa na cara e abri os olhos, e lá estava ela, me chupando, olhando pra mim e rindo de boca cheia. Trepamos, fodemos, transamos e depois fizemos amor. Eu queria passar a vida inteira com aquela mulher. Acabamos as nove da manhã. Ela exausta, eu mais ainda. Ela dormiu e eu repeti o ritual do cigarro. Acordei as quatro. Ela não estava mais lá. Nem minha guitarra. Ela roubou o que eu nem usava. Normal, todos que eu conheço vão embora com o vento. Tomei um banho, me vesti e acendi o cigarro, mais um dia frio. Cheguei no bar e pendurei meu casaco. Quem sabe hoje uma coroa fedida não me faça feliz?
