terça-feira, 28 de maio de 2013

Rachelita.




Rachel se preparava para levantar, rolando na cama. Enquanto isso, eu estava no banho, e claro, pensando nela.”


Rachel não era nada minha, o que não significava que não era nada para mim. Ela tinha sido expulsa de casa, por seu “padastroiola”, como ela costuma dizer, e me implorou para passar uns dias em minha casa. Claro que antes eu hesitei um pouco, inventei alguns falsos argumentos de que aquilo tinha tudo para dar errado, mesmo eu discordando veementemente de cada palavra que saía da minha imunda boca. Até que ela conseguiu “me convencer” e se mudar para cá.
Nos primeiros quatro dias eu dormi no sofá, respeitando-a,passando por cima de meus desejos mais profundos,  enquanto ela dormia sozinha na minha cama de casal (que desperdício!). Até que na madrugada do quarto para o quinto dia, uma noite fria de sexta-feira, eu acordo meio atordoado com Rachel me cutucando, e dizendo com aquela voz angelical dela: “ Esqueci o Ted lá em casa, e tô com frio. Pode dormir na cama pra eu te abraçar e me esquentar?” Bendito Ted! Dormimos agarradinhos com Rachel se acomodando no meu peito cabeludo, enquanto eu grunhia todos os nomes de santo possíveis, na tentativa (falha) de que eles me salvassem do que eu estava prestes a fazer. Merda.
 _Quantos anos você tem mesmo? –Sussurrei em seu ouvido.
_Idade suficiente pra você fazer o que quer. –Ela disse, mordendo os lábios depois.
_Aw, touché.
E ela sorriu. Ela poderia ter feito tudo, menos sorrir.
Depois disso, começamos uma depravação, que não darei detalhes, pois não se conta os segredos de uma dama (dama?), e apesar de tudo, sempre serei um “real gentleman”.
Eu era porteiro na escola de Rachel, um emprego de merda que tinha arrumado para pagar a impressão do meu primeiro livro de contos, e também porquê eu era um fiel seguidor da filosofia de Nabokov/Humbert H., mas não era tão exigente quanto ele, só amava ninfetas, bronzeadas, branquelas, tanto faz. Me excitava só de pensar naquelas ancas jovens, no jeito sapeca de ser descuidadas, na calcinha que aparece acidentalmente por baixo da saia azul, a variedade de cores e tamanhos para as meninas dessa idade chega a me surpreender: fio dental azul, cueca vermelha, cavada roxa, e por aí vai. Eis que então, chega o início do meu fim, meu agradável inferno: Rachelita! (Agradecido, Humbert). Ela era magra, branquela, baixinha, tinha os olhos azuis esbugalhados, e um sorriso de anjo caído. Ganhava a semana quando ela me dava um bom dia, e como ganhava! Fiquei amigo da pequena infernal, virei seu confidente, ficávamos conversando horas até seu negligente “padrastep” (outro apelido dado por ela) chegar. Fiquei sabendo de todos os problemas, de todas as desavenças, da vida da pequena e problemática Rachel.
Enfim consegui publicar meu livro, que claro, foi um fiasco de vendas. Mas meu anjo comprou e leu, me elogiou e disse que também tinha o sonho de ser escritora e que precisava de ajuda com algumas coisas, e eu solícito como sou, a ajudei a escrever seu primeiro conto, uma antologia de “god hates us all” do fictício (Mas como eu queria que fosse real!) Hank Moody, que por acaso era um dos meus livros preferidos, e era o dela. O conto, para mim, não ficou muito bom, mas consegui me enganar, pois o conto era dela! Ela começou a frequentar minha casa com a desculpa de querer saber como um escritor de verdade vive, e junto com minha casa, Rachel invadiu mais ainda meu mundo. Invadiu, estremeceu, bagunçou, fez o que as “crianças” fazem. E então, ela vem morar aqui, e começamos a viver como um casal, e nos dois meses que passamos juntos ela se saiu uma perfeita noivinha. Agora me recordo de um diálogo que tivemos no telhado de meu prédio, lugar que íamos para ver as estrelas.
_Sério, Rachel, quantos anos você tem?
_Caramba! Você é muito chato. Tenho 14.
_E eu tenho 19, merda. Eu posso ser preso, sabia?
_Só relaxa. Carpe diem baby!
_Mas eu sou ruim de cálculo, então na minha concepção não temos nada de errado. –E rimos.
Nos amamos um pouco no chão do telhado (paradoxo bonito, não é?), e voltamos para meu apertado apartamento. Então meu inferno se abriu. Comecei a discutir com Rachel sobre o gosto da comida, que costumava ser muito boa, mas que estava uma merda! Então ela se doeu, e criança do jeito que é, pegou o telefone, e ligou para um número de três dígitos. Minutos depois eu olho pela janela piscando alternadamente entre as cores azul e vermelho, formando por alguns milésimos de segundo a bandeira dos EUA, com o branco da janela. E então comecei a fazer contas: 19-14=5 carros de polícia lá fora, 5 carros de polícia é igual a no mínimo 40 anos prisão ou menos um, aqui ou na cadeia. Nas duas hipóteses eu rezo para minha natureza de ser ruim de conta funcionar. Rachel, sua merdinha.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Apache.



Entrei em um ônibus para ir até a escola, ontem, pela manhã. Logo quando entrei percebi uma menina linda, ela tinha a cara da transição da década de 60 para a de 70, muito linda mesmo, com um corpo escultural, não porquê foi esculpido, mas porquê nasceu assim. Enquanto viajávamos eu sentei em um banco e pedi para segurar sua mochila, afinal, sou um cavalheiro e ela era muito linda. Eu estava sentado em um banco que ficava de frente para todo o ônibus, um banco especial. Alguns minutos depois ela se sentou em um banco que ficava à minha frente e eu fiquei apreciando aquela beleza indubitável, por uns 10 minutos, até que eu vejo uma mulher que mudaria toda minha concepção sobre a vida.
 A mulher era muito forte, tinha uns 1,90 de altura, tinha cheiro de cigarros paraguaios, carregava umas três sacolas, e comia um salgadinho de bacon, nojento, que é delicioso, mas nojento nas mãos dela. A linda menina que estava sentada em minha frente, deu lugar a velha, e então comecei a prestar atenção em suas atitudes, primeiro com o asco se aflorando, olhando sua blusa preta suja, sua falta de cuidado e de educação, e ainda assim uma feição soberba, minha menina se foi. E então, como um soco na cara, o asco se foi. Ao lado da velha, estava uma mulher, bem velhinha, com problemas psicológicos, uns tiques. A mulher grande disse, para a velhinha, num tom muito amigável:
_Aceita um pouco, minha senhora? –Ela disse, sorridente e amável.
_Não minha filha, muito obrigado. –Disse a velhinha, com dificuldade.
Quando vi aquilo, meu mundo se despencou. Quem era aquela mulher, que aparentava ter um caráter horrível e uma áurea asquerosa, e que subitamente se mostra caridosa e educada?
                E as peripécias da viagem continuaram. A mulher começou a procurar algo na bolsa, que era de couro, com um design indígena mesmo. Separou os cigarros, o lenço de papel e mais algumas coisas, das quais não consigo me lembrar, e tirou um fone de ouvido. Mais uma vez, me espantei, pois esperasse que ela fosse ouvir sua música no alto-falante, e por ironia do destino, me estrepei de novo. Ela tirou o fone da bolsa, e estava tentando o desenrolar, e o fez com uma destreza incrível, enquanto prendeu as bolsas no nó do casaco em sua cintura, para ter as mãos livres. “Quanta inteligência, quanta destreza, quanta habilidade!”, pensei.
                Enquanto viajávamos, fui prestando atenção em seu semblante, em sua expressão, que estava claramente perdida em devaneios e pensamentos preocupantes, e talvez alguns reconfortantes. Comecei a imaginar, como seria a vida daquela mulher: sua casa apertada, seus netos correndo de um lado pro outro no meio da bagunça, sua vontade de tentar ser melhor, seu desejo de não desperdiçar o próprio potencial, e sua aceitação diante do que a sociedade lhe obrigou. E então, para colocar a última pá de terra, e fechar meu funeral moral, a moça com face determinada, com feições dos índios apache, tira um batom da bolsa, e o passa em sua boca, se olhando no espelho do pó compacto, e depois que acabou de passar o batom, tirou o excesso com a mão, limpou em sua calça, olhou para o espelho, sorriu e fez caras e bocas, pouco se importando com as pessoas que ali se encontravam, pouco se importando do que achavam. “Que exemplo de vida!”, pensei novamente.
                E então, a linda apache desceu do ônibus, deixando minha concepção geral em pedaços. Desci dois pontos depois, acendi meu cigarro e pensei: “A humanidade já era. Estamos entrando em colapso, a gentileza não existe mais, o preconceito entrou em seu lugar. Somos reféns do nosso próprio medo e desconfiança, gerando toda essa merda que vemos hoje, e não é disso que passamos, ou que passaremos no final de tudo: Merda.”, e continuei andando.

domingo, 5 de maio de 2013

O último texto.

Iremos navegar essa noite?
Ou apenas voaremos?
Pelo espaço, entre os ventos
E ao seu lado, tudo é doce
Até o suposto cigarro amargo
Da fumaça, às vezes escassa
Pois no pulmão, a respiração falta
E na vida, já anda na contramão

Sei, que essa poesia
Nunca te interessaria
Poesia chata, que te dá tédio
Mas para mim, é como um remédio
Para tentar realmente, curar
A falta que sua falta traz
E aqui nunca mais vai estar

Vou continuar sabendo
Que no órgão sempre estará
Mesmo que morrendo
E que um dia morrerá
Mas é só, só mesmo sem você
Que eu vou um dia aprender
Para você, não mais escrever

Continuarei com a vida
Aumentarei a bebida
E até com minhas óbvias rimas
Que são minha morfina
Cessarei, e me deixarei ao esmo
Porquê, para você
Esse foi meu último texto.