segunda-feira, 20 de maio de 2013

Apache.



Entrei em um ônibus para ir até a escola, ontem, pela manhã. Logo quando entrei percebi uma menina linda, ela tinha a cara da transição da década de 60 para a de 70, muito linda mesmo, com um corpo escultural, não porquê foi esculpido, mas porquê nasceu assim. Enquanto viajávamos eu sentei em um banco e pedi para segurar sua mochila, afinal, sou um cavalheiro e ela era muito linda. Eu estava sentado em um banco que ficava de frente para todo o ônibus, um banco especial. Alguns minutos depois ela se sentou em um banco que ficava à minha frente e eu fiquei apreciando aquela beleza indubitável, por uns 10 minutos, até que eu vejo uma mulher que mudaria toda minha concepção sobre a vida.
 A mulher era muito forte, tinha uns 1,90 de altura, tinha cheiro de cigarros paraguaios, carregava umas três sacolas, e comia um salgadinho de bacon, nojento, que é delicioso, mas nojento nas mãos dela. A linda menina que estava sentada em minha frente, deu lugar a velha, e então comecei a prestar atenção em suas atitudes, primeiro com o asco se aflorando, olhando sua blusa preta suja, sua falta de cuidado e de educação, e ainda assim uma feição soberba, minha menina se foi. E então, como um soco na cara, o asco se foi. Ao lado da velha, estava uma mulher, bem velhinha, com problemas psicológicos, uns tiques. A mulher grande disse, para a velhinha, num tom muito amigável:
_Aceita um pouco, minha senhora? –Ela disse, sorridente e amável.
_Não minha filha, muito obrigado. –Disse a velhinha, com dificuldade.
Quando vi aquilo, meu mundo se despencou. Quem era aquela mulher, que aparentava ter um caráter horrível e uma áurea asquerosa, e que subitamente se mostra caridosa e educada?
                E as peripécias da viagem continuaram. A mulher começou a procurar algo na bolsa, que era de couro, com um design indígena mesmo. Separou os cigarros, o lenço de papel e mais algumas coisas, das quais não consigo me lembrar, e tirou um fone de ouvido. Mais uma vez, me espantei, pois esperasse que ela fosse ouvir sua música no alto-falante, e por ironia do destino, me estrepei de novo. Ela tirou o fone da bolsa, e estava tentando o desenrolar, e o fez com uma destreza incrível, enquanto prendeu as bolsas no nó do casaco em sua cintura, para ter as mãos livres. “Quanta inteligência, quanta destreza, quanta habilidade!”, pensei.
                Enquanto viajávamos, fui prestando atenção em seu semblante, em sua expressão, que estava claramente perdida em devaneios e pensamentos preocupantes, e talvez alguns reconfortantes. Comecei a imaginar, como seria a vida daquela mulher: sua casa apertada, seus netos correndo de um lado pro outro no meio da bagunça, sua vontade de tentar ser melhor, seu desejo de não desperdiçar o próprio potencial, e sua aceitação diante do que a sociedade lhe obrigou. E então, para colocar a última pá de terra, e fechar meu funeral moral, a moça com face determinada, com feições dos índios apache, tira um batom da bolsa, e o passa em sua boca, se olhando no espelho do pó compacto, e depois que acabou de passar o batom, tirou o excesso com a mão, limpou em sua calça, olhou para o espelho, sorriu e fez caras e bocas, pouco se importando com as pessoas que ali se encontravam, pouco se importando do que achavam. “Que exemplo de vida!”, pensei novamente.
                E então, a linda apache desceu do ônibus, deixando minha concepção geral em pedaços. Desci dois pontos depois, acendi meu cigarro e pensei: “A humanidade já era. Estamos entrando em colapso, a gentileza não existe mais, o preconceito entrou em seu lugar. Somos reféns do nosso próprio medo e desconfiança, gerando toda essa merda que vemos hoje, e não é disso que passamos, ou que passaremos no final de tudo: Merda.”, e continuei andando.

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