Eram dez da manhã, meu celular gritava uma música punk qualquer, parece que tentando me fazer levantar, desesperadamente. Maria estava na cozinha, preparando um café e o almoço ao mesmo tempo. Enquanto eu lhe dava bom dia só de cueca na cozinha, acendi um cigarro enquanto apreciava aquele olhar morto pela manhã, querendo vida, com Maria sorrindo, deus! Que sorriso lindo, grande e expressivo, e era lá que eu pagava meus pecados, toda santa manhã. Ela me deu uma xícara de café, tomei um gole e cuspi.
_Que merda é essa, Maria?
_Café?
_Não chegou nem perto. -Respondi, virando as costas.
De dentro do banheiro conseguia escutar sua respiração chorosa e abafada na cozinha, mixando-se com o tilintar das panelas. Liguei o chuveiro, e deixei a água levar toda a culpa de ter feito ela chorar. Maria era o tipo de mulher que não foi feita para chorar, era linda e amável, com grandes olhos castanhos, superficiais e cheios de amor, e um corpo que me fazia querer fodê-la a qualquer segundo. Saí do banheiro, me enxuguei, vesti a calça jeans e fui almoçar. Ela estava em pé atrás da pia, lavando algo, abracei-a por trás e sussurrei: "Me desculpa, vai. Por quê você não vira meu almoço agora hein?", senti sua bunda arrebitando e vi seu corpo arrepiando e o sorriso sincero e safado de sempre. Levei ela para a cama de solteiro do apartamento, e fiz como todas as outras vezes, ela nunca se cansava daquilo: chupar, gozar, foder, gozar, foder, gozar, e aí gozar mais uma vez. Encaixávamos sexualmente mais que o zeppelin na década de setenta, era o expurgo de todos os venenos exteriores, a redenção, a limpeza. Depois que acabamos, ela foi terminar o almoço e eu terminar de me arrumar de novo. Descobri que tinha perdido minha carteira em um bar ou lanchonete, sei lá. Tive que pedir dinheiro para ela, pela terceira vez aquela semana, era uma quinta-feira quente e abafada.
_Amor, preciso de vinte reais.
_Cadê seu dinheiro?
_Perdi minha carteira ontem.
_De novo, Heitor?
_Vai emprestar? Preciso ir trabalhar.
_Por quê você tá tão frio comigo? Eu te fiz algo? Eu não sou o suficiente pra você? -Disse ela, quase chorando.
_Não, meu amor. Só tô estressado algumas coisas do trabalho. -Menti descaradamente. Eu e ela sabíamos que não era isso.
Ela me deu o dinheiro e voltou pra lavar a louça do almoço, cujo eu não comi.
Saí do trabalho, fui para o bar, encontrei uma velha amiga do colegial, bebemos algumas cervejas com meus vinte reais, levei ela pro canto do bar, e comi ela ali mesmo. Sempre fazia esse tipo de coisa, sempre quando dava, e de um jeito bem cruel, e quase involuntário, eu não conseguia sentir culpa.
Logo que abri o portão de casa, senti um arrepio, um aviso de que algo tinha acontecido, nosso cachorro não veio correndo e ela não disse para ele
"Quem chegou?", adentrei a cozinha e ele estava deitado, chorando
baixinho, com as patas em cima de uma folha de caderno dobrada. Abri.
"Querido H., antes de tudo, para não se surpreender, quero te dizer que me enforquei. Sei o que você faz por aí, sei quantas mulheres já comeu, sei até quantas cervejas já bebeu. Sei também que te amo mais do que um dia eu entenderei, por isso me sacrifiquei por você. Fui até onde aguentei, até onde sua grosseria me deixou ir. Eu aguentaria mil anos, se eu fosse a única, mas você não pode ser de uma só, e isso é tudo que eu sou: só mais uma. Uma bem especial, talvez, mas só mais uma. Você não é homem o suficiente para ser capaz de amar, e eu não fui mulher o suficiente para tentar te ensinar. A única lição que eu te deixo de verdade, que você poderá usar para sua vida é te fazer virar homem e pensar antes de cometer seus pecados, porquê meu sorriso não estará mais lá, para pagar por você. Provavelmente agora estou do dentro do fogo, do lado do tinhoso. Tentei ser uma boa mulher, eu juro.
P.s.: Tem um café decente na cafeteira.
Com amor e vontade de ter sido mais forte, Maria."
Entrei no quarto, e a vi, pelada, roxa e um pouco vomitada, balançando macabramente ainda, com a corda amarrada na barra que eu comprei para fazer abdominais (sabia que aquela porra que nunca serviu para nada, ia me foder um dia). Fui para a cozinha, peguei a cafeteira, a xícara dela e servi o café. Antes de tomar, ouvi uma voz medonha me dizendo: "Pegue um lugar dentro do fogo com ela.", tomei mesmo assim. O gosto era ótimo, mas meu corpo rejeitou. "Sinto falta do café ruim.", eu disse. Caí. Tudo escureceu. E de repente só via chamas.
sexta-feira, 27 de setembro de 2013
domingo, 8 de setembro de 2013
Não, espere.
A moça continuava deitada nua na mesa, enquanto o bastardo continuava a acariciar-lhe o corpo, completamente estendido, com as pernas quase juntas, com as costelas à mostra. “Isso até me excita de alguma forma”, disse ela, com aquela voz rouca de quem fuma à uns cinco anos, praticamente sem cessar. Os cabelo loiros, que saíam da mesa, formavam um caleidoscópio, refletidos pela luz do abajur que era meia fase, com a do teto, que era fluorescente, e dos olhos de seu provável assassino, que brilhavam sem cessar, observando seu brinquedinho para ser Deus. Ele encostou o dedo em sua bocetinha compacta e bem saliente, parecendo um morro, com as vegetações bem aparadas. Ela abriu a boca, gemeu de prazer, graças a mão suja de ira, que nesse momento já enfiava o dedo e vasculhava cada centímetro da ampla vagina. A vítima goza, se mija toda, o executor ri.
Na vitrola despedaçada, o som de Johnny Cash explorava o lugar, como se cada onda sonora fizesse Jane sentir um orgasmo, cada nota musical do violão de Johnny fazia ela arrepiar de prazer, enquanto, da mesma maneira das ondas, os dedos de Larry exploravam o interior daquela vagina produzindo as notas musicais dos gemidos de Jane, até o clímax se aproximar de novo, e quando Jane já se contorcia, já apertava as bordas das mesas, o desgraçado pega o bisturi, na mesa de apoio, a corta a barriga bem de leve, ela grita com o prazer da dor. Se mijou, a urina atingiu o corte, gritou de agonia dessa vez.
O potencial assassino pega um pano vermelho, enxuga o líquido laranja da barriga da jovem, e diz: “O incrível, é quem eu nem te amarrei. Você é uma puta barata mesmo, e nada mais que isso. E é por isso, só por isso que você vai morrer”. Depois de enxugar toda a barriga dela, ele pega um taco de beisebol e quebra a vitrola, já caindo aos pedaços. Pega um caco dos estilhaços da capa de acrílico, que protege o disco, e caminha na direção da mulher lá estendida. No caminho, passa por uma mesa de canto e pega seu óculos da sorte. Chega perto dela, e a luz, por algum defeito pisca, como nos filmes de terror, “Melhor assim, quero que sinta tudo de olhos bem abertos, misturando todos os sentidos”, comenta o assassino. Enquanto ele a olhava com os óculos escuros e redondos, ela podia ver seu próprio reflexo e o fitava sem cessar, o assassino sorriu e desferiu 13 golpes, uns rápidos e vigorosos, outros lentos e apáticos. No décimo quarto, que tinha como destino os olhos, na velocidade do ato, que era a de um piscar de olhos, quando a ponta ensanguentada do caco se aproximou, ela fechou os olhos.
Acordou. Estava em casa com seu marido do lado, deitado de costas para ela, em sua cama. Pensou que era ótimo estar em sua própria cama, em sua casa, do lado amor de sua vida. Virou de lado e quando percebeu em meio a meia-luz do abajur não acreditou, não podia ser, não podia! Era o assassino, com os óculos escuros e aquele sorriso maníaco. Ele a olha profundamente nos olhos, aponta a arma para o marido e diz: “Vire-o”, ela virou, e quando viu, o cara tinha 13 furos na barriga e um no olho. “Sonhos doces são feitos assim, meu bem.”, disse o bastardo. E a apagou com uma coronhada.
Duas horas depois, ela abre os olhos com dificuldade, consegue ver alguns borrões que pareciam pessoas bem estranhas, mascaradas e com roupas estranhas. Ela tenta olhar ao redor, mas seu pescoço dói muito. Ela tenta gritar, mas a voz já lhe falha e a boca está amordaçada. Quando consegue ver com clareza está dentro de um porão sujo, com várias latas, cheias de partes do corpo humano, cada uma em seu devido lugar na prateleira, imitando o formato de corpos como se fossem palitinhos desenhados, com o que pareciam ser os integrantes do slipknot. Ela fica apavorada, arregala os olhos, com todo o pavor estampado neles. O assassino chega, com a feição séria, e diz, poupando palavras: “Você é minha, nem que para isso eu tenha que te enfeitiçar. Você está vestida em mim, com todos os anéis, todos os colares, até todas as calcinhas. Eu te amo, não queria deixar isso se construir dentro de mim, mas não tive escolha”. E atira. Dois tiros, um em cada seio, e um bem no meio dos olhos, que continuaram ligeiramente abertos. “Agora você é só uma memória morta, dentro de mim”.
Larry acorda, suando e verdadeiramente desesperado. Acende um cigarro, e anda a casa inteira, para tentar esquecer, percorre cada cômodo: “Sala, ok. Quarto, ok. Cozinha, ok. Sótão, ok. Porão, o corpo ainda tá aqui. Quarto, ok. Ufa! Ainda bem que foi só um pesadelo. Não, espera!”.
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