domingo, 8 de setembro de 2013

Não, espere.


                A moça continuava deitada nua na mesa, enquanto o bastardo continuava a acariciar-lhe o corpo, completamente estendido, com as pernas quase juntas, com as costelas à mostra. “Isso até me excita de alguma forma”, disse ela, com aquela voz rouca de quem fuma à uns cinco anos, praticamente sem cessar. Os cabelo loiros, que saíam da mesa, formavam um caleidoscópio, refletidos pela luz do abajur que era meia fase, com a do teto, que era fluorescente, e dos olhos de seu provável assassino, que brilhavam sem cessar, observando seu brinquedinho para ser Deus. Ele encostou o dedo em sua bocetinha compacta e bem saliente, parecendo um morro, com as vegetações bem aparadas. Ela abriu a boca, gemeu de prazer, graças a mão suja de ira, que nesse momento já enfiava o dedo e vasculhava cada centímetro da ampla vagina. A vítima goza, se mija toda, o executor ri.
                Na vitrola despedaçada, o som de Johnny Cash explorava o lugar, como se cada onda sonora fizesse Jane sentir um orgasmo, cada nota musical do violão de Johnny fazia ela arrepiar de prazer, enquanto, da mesma maneira das ondas, os dedos de Larry exploravam o interior daquela vagina produzindo as notas musicais dos gemidos de Jane, até o clímax se aproximar de novo, e quando Jane já se contorcia, já apertava as bordas das mesas, o desgraçado pega o bisturi, na mesa de apoio,  a corta a barriga bem de leve, ela grita com o prazer da dor.  Se mijou, a urina atingiu o corte, gritou de agonia dessa vez.
                O potencial assassino pega um pano vermelho, enxuga o líquido laranja da barriga da jovem, e diz: “O incrível, é quem eu nem te amarrei. Você é uma puta barata mesmo, e nada mais que isso. E é por isso, só por isso que você vai morrer”. Depois de enxugar toda a barriga dela, ele pega um taco de beisebol e quebra a vitrola, já caindo aos pedaços. Pega um caco dos estilhaços da capa de acrílico, que protege o disco, e caminha na direção da mulher lá estendida. No caminho, passa por uma mesa de canto e pega seu óculos da sorte. Chega perto dela, e a luz, por algum defeito pisca, como nos filmes de terror, “Melhor assim, quero que sinta tudo de olhos bem abertos, misturando todos os sentidos”, comenta o assassino. Enquanto ele a olhava com os óculos escuros e redondos, ela podia ver seu próprio reflexo e o fitava sem cessar, o assassino sorriu e desferiu 13 golpes, uns rápidos e vigorosos, outros lentos e apáticos. No décimo quarto, que tinha como destino os olhos, na velocidade do ato, que era a de um piscar de olhos, quando a ponta ensanguentada do caco se aproximou, ela fechou os olhos.
                Acordou. Estava em casa com seu marido do lado, deitado de costas para ela, em sua cama. Pensou que era ótimo estar em sua própria cama, em sua casa, do lado amor de sua vida. Virou de lado e quando percebeu em meio a meia-luz do abajur não acreditou, não podia ser, não podia! Era o assassino, com os óculos escuros e aquele sorriso maníaco. Ele a olha profundamente nos olhos, aponta a arma para o marido e diz: “Vire-o”, ela virou, e quando viu, o cara tinha 13 furos na barriga e um no olho. “Sonhos doces são feitos assim, meu bem.”, disse o bastardo. E a apagou com uma coronhada.
                Duas horas depois, ela abre os olhos com dificuldade, consegue ver alguns borrões que pareciam pessoas bem estranhas, mascaradas e com roupas estranhas. Ela tenta olhar ao redor, mas seu pescoço dói muito. Ela tenta gritar, mas a voz já lhe falha e a boca está amordaçada. Quando consegue ver com clareza está dentro de um porão sujo, com várias latas, cheias de partes do corpo humano, cada uma em seu devido lugar na prateleira, imitando o formato de corpos como se fossem palitinhos desenhados, com o que pareciam ser os integrantes do slipknot. Ela fica apavorada, arregala os olhos, com todo o pavor estampado neles. O assassino chega, com a feição séria, e diz, poupando palavras: “Você é minha, nem que para isso eu tenha que te enfeitiçar. Você está  vestida em mim, com todos os anéis, todos os colares, até todas as calcinhas. Eu te amo, não queria deixar isso se construir dentro de mim, mas não tive escolha”. E atira. Dois tiros, um em cada seio, e um bem no meio dos olhos, que continuaram ligeiramente abertos. “Agora você é só uma memória morta, dentro de mim”.
              Larry acorda, suando e verdadeiramente desesperado. Acende um cigarro, e anda a casa inteira, para tentar esquecer, percorre cada cômodo: “Sala, ok. Quarto, ok. Cozinha, ok. Sótão, ok. Porão, o corpo ainda tá aqui. Quarto, ok. Ufa! Ainda bem que foi só um pesadelo. Não, espera!”.

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