sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Café.

Eram dez da manhã, meu celular gritava uma música punk qualquer, parece que tentando me fazer levantar, desesperadamente. Maria estava na cozinha, preparando um café e o almoço ao mesmo tempo. Enquanto eu lhe dava bom dia só de cueca na cozinha, acendi um cigarro enquanto apreciava aquele olhar morto pela manhã, querendo vida, com Maria sorrindo, deus! Que sorriso lindo, grande e expressivo, e era lá que eu pagava meus pecados, toda santa manhã. Ela me deu uma xícara de café, tomei um gole e cuspi.
_Que merda é essa, Maria?
_Café?
_Não chegou nem perto. -Respondi, virando as costas.
De dentro do banheiro conseguia escutar sua respiração chorosa e abafada na cozinha, mixando-se com o tilintar das panelas. Liguei o chuveiro, e deixei a água levar toda a culpa de ter feito ela chorar. Maria era o tipo de mulher que não foi feita para chorar, era linda e amável, com grandes olhos castanhos, superficiais e cheios de amor, e um corpo que me fazia querer fodê-la a qualquer segundo. Saí do banheiro, me enxuguei, vesti a calça jeans e fui almoçar. Ela estava em pé atrás da pia, lavando algo, abracei-a por trás e sussurrei: "Me desculpa, vai. Por quê você não vira meu almoço agora hein?", senti sua bunda arrebitando e vi seu corpo arrepiando e o sorriso sincero e safado de sempre. Levei ela para a cama de solteiro do apartamento, e fiz como todas as outras vezes, ela nunca se cansava daquilo: chupar, gozar, foder, gozar, foder, gozar, e aí gozar mais uma vez. Encaixávamos sexualmente mais que o zeppelin na década de setenta, era o expurgo de todos os venenos exteriores, a redenção, a limpeza. Depois que acabamos, ela foi terminar o almoço e eu terminar de me arrumar de novo. Descobri que tinha perdido minha carteira em um bar ou lanchonete, sei lá. Tive que pedir dinheiro para ela, pela terceira vez aquela semana, era uma quinta-feira quente e abafada.
_Amor, preciso de vinte reais.
_Cadê seu dinheiro?
_Perdi minha carteira ontem.
_De novo, Heitor?
_Vai emprestar? Preciso ir trabalhar.
_Por quê você tá tão frio comigo? Eu te fiz algo? Eu não sou o suficiente pra você? -Disse ela, quase chorando.
_Não, meu amor. Só tô estressado algumas coisas do trabalho. -Menti descaradamente. Eu e ela sabíamos que não era isso.
Ela me deu o dinheiro e voltou pra lavar a louça do almoço, cujo eu não comi.
Saí do trabalho, fui para o bar, encontrei uma velha amiga do colegial, bebemos algumas cervejas com meus vinte reais, levei ela pro canto do bar, e comi ela ali mesmo. Sempre fazia esse tipo de coisa, sempre quando dava, e de um jeito bem cruel, e quase involuntário, eu não conseguia sentir culpa.
Logo que abri o portão de casa, senti um arrepio, um aviso de que algo tinha acontecido, nosso cachorro não veio correndo e ela não disse para ele "Quem chegou?", adentrei a cozinha e ele estava deitado, chorando baixinho, com as patas em cima de uma folha de caderno dobrada. Abri.

"Querido H., antes de tudo, para não se surpreender, quero te dizer que me enforquei. Sei o que você faz por aí, sei quantas mulheres já comeu, sei até quantas cervejas já bebeu. Sei também que te amo mais do que um dia eu entenderei, por isso me sacrifiquei por você. Fui até onde aguentei, até onde sua grosseria me deixou ir. Eu aguentaria mil anos, se eu fosse a única, mas você não pode ser de uma só, e isso é tudo que eu sou: só mais uma. Uma bem especial, talvez, mas só mais uma. Você não é homem o suficiente para ser capaz de amar, e eu não fui mulher o suficiente para tentar te ensinar. A única lição que eu te deixo de verdade, que você poderá usar para sua vida é te fazer virar homem e pensar antes de cometer seus pecados, porquê meu sorriso não estará mais lá, para pagar por você. Provavelmente agora estou do dentro do fogo, do lado do tinhoso. Tentei ser uma boa mulher, eu juro.
 P.s.: Tem um café decente na cafeteira.

                                                                     Com amor e vontade de ter sido mais forte, Maria."


Entrei no quarto, e a vi, pelada, roxa e um pouco vomitada, balançando macabramente ainda, com a corda amarrada na barra que eu comprei para fazer abdominais (sabia que aquela porra que nunca serviu para nada, ia me foder um dia). Fui para a cozinha, peguei a cafeteira, a xícara dela e servi o café. Antes de tomar, ouvi uma voz medonha me dizendo: "Pegue um lugar dentro do fogo com ela.", tomei mesmo assim. O gosto era ótimo, mas meu corpo rejeitou. "Sinto falta do café ruim.", eu disse. Caí. Tudo escureceu. E de repente só via chamas.

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