segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Mais um dia.



               Alto, loiro, um porte inigualável, uma cicatriz que lhe atravessava o olho, com duas armas no coldre e uma vontade sangue que se conseguia sentir até o cheiro. Dinheiro, bebida, mulheres e mais de noventa assassinatos nas costas. Esse era meu pai, e eu, provavelmente era sua única fraqueza. Toda noite ele se sentava comigo na frente de nossa casa bem escondida e me contava as histórias (muito boas), de todos os quarenta estados que ele não podia atravessar, e também de quando ele atravessou a Califórnia, reto no deserto até Dashville só com uma garrafa de Rum e uma colt com duas balas. Até hoje, a polícia não sabe onde meu pai está, o velho morreu antes que eles fizessem algo. Morreu de cirrose, bebia demais. A morte do meu velho, não alterou muita coisa no meu destino, não. Naquele lugar, que era bem escondido, se ergueu uma cidade chamada Tombstone. Como era um local difícil de se encontrar, era um dos principais refúgios de bandidos e gente da pior espécie, então a cidade cresceu com esse tipo de gente, e sem alternativas, viraram meus conterrâneos.
                Todas as noites eram inebriadas pelas luzes das portarias do bordéis, e se podia ver com facilidade assassinos como meu pai, andando livremente, no entra e sai dos cabaréis. E eu, como era de se imaginar, segui esse caminho, fui produto da sociedade. A cidade tinha um bar só, se chamava “fim do fundo do inferno” , onde não se bebia em copos, e sim direto nos barris. Confusão, sinuca e carteado de todos os estilos, toda noite era o mal pela raiz.
                Na cidade, havia também, um pouco mais afastado da “zona do caos”, uma capela e um convento, o “Santa Madre”. Na capela, a maioria de “fiéis” eram as putas, que iam rezar para não serem mortas por algum bêbado muito exaltado. A única exceção masculina, na capela, era o padre, que era o único filho da puta que eu conheci que conseguiria se manter puro no meio daquela putaria toda. Era um rebelde da babilônia, uma virgem em Sodoma, ou em Gomorra. Esse cara tinha meu respeito. Toda madrugada, ele saía de sua casa, e atravessava a zona agarrando seu crucifixo, esperando pelo amanhecer. “Senhor, me mantenha longe dessa tinta venenosa, que assina a vida de todas as pessoas dessa cidade, e não me dê agora a colher para eu cavar minha cova. Preciso completar minha missão aqui, Amém”. Ele orava essas palavras por todo o percurso, até chegar na capela.
                Em uma noite, tudo na cidade saiu do controle, e nós ocupamos o convento, e transformamos ele em “Santa Madre Casino”, frequentado só pelo pior da bandidagem, o santa madre era uma extensão do bar da cidade, e o indivíduo só podia ir embora se estivesse bebum.
                Então na manhã seguinte, em sua caminhada, não havia tanta gente na zona, e tudo estava mais calmo, exceto pelos usuais tiros de canhão e o cheiro insuportável de carniça. Ele atravessou a zona, e subindo o pequeno morro, sentiu o cheiro de enxofre, que se mixou com o de carniça, e ele teve vontade de desmaiar, vomitar, morrer, nem ele sabia direito. Quando dirigiu os olhos para a capela ela estava só os frangalhos, as cinzas caíam e seguiam o vento. Estava negra como as trevas e as mentes daqueles pecadores. Seguiu o caminho e entrou no casino, viu todas as feiras que ele ensinou e cuidou com tanto carinho, dançando nuas no balcão do bar. Aquilo era, no mínimo, três vezes pior que Sodoma e Gomorra juntas. Um grandalhão que bebia e arrotava sem parar, o agarrou pelo colarinho.
                -Aqui não é lugar pra gente como você.
O padre orou baixinho a oração de sempre, do caminho, esperando alguma ação do senhor.
                -O quê? Colher, cova? Tá maluco?
Aceitando seu destino, o padre disse:
                -Meu senhor me perdoe por adentrar nesse antro pecaminoso. E caro irmão, eu te perdôo.
                -Esse velho tá de sacanagem comigo.
O grandalhão arremessou o padre pelo vitral gótico, ele caiu ensanguentado no chão pra fora do casino. O grandalhão era ateu, e tinha raiva de qualquer tipo de religião. Apontando a arma para o padre, disse:
                -Religião é ódio, religião é medo, religião é guerra. Religião é estupro, a religião é obscena, a religião é uma puta. – E atirou.
                No final das contas, a tinta venenosa era o sangue do padre, e ele recebeu sua colher para cavar sua própria cova. Ali, era só mais um vagabundo com uma bala na cabeça. Ninguém se importou, o dono da cidade estava caído perto dali, extremamente embriagado.  E lá se foi mais uma noite em Tombstone.

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