segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

General.


“Não desperdiçarei meu ódio com você”, foi isso que ela disse. Mesmo depois de esmagada pelas minhas lamentações, ela continuava a se fazer de durona. Filha da puta. Ela era um general emocional, conseguia imaginar seus sentimentos lá dentro, de queixo erguido, com uma cara serena e firme, um olhar cruel e uma mão pronta pra matar.
Deixei a casa com o sentimento de impotência, de não ter feito tudo que podia, afinal, eu era um bosta, ou sempre fui, sei lá.
No outro dia, recebi a ligação, aquela que todos temem.
-alô.
-Senhor, aqui é do hospital salamandra, achamos seu número como preferido no dispositivo móvel da paciente.
-que merda é essa? Paciente do quê?
-Ela tentou cometer um suicídio, o senhor poderia estar comparecendo aqui no hospital..-sei onde fica essa porra- desliguei.
Odiava gerúndio e telefonistas, tinha vontade enfiar uma cenoura no rabo de cada uma que fala “o senhor podia estar”.
Cheguei no hospital, falei o nome dela pra recepcionista.
-quarto 308. –ela disse depois de uma cara espantada, de que a coisa estava bem feia.
-ok.
Subi as escadas, andei pelo corredor com as portas numeradas, naquela penumbra assustadora que é todo hospital. Girei a maçaneta, entrei, e lá estava ela: parecendo um cadáver, deitada estritamente reta, com as pernas cruzadas e as mãos sobre o peito.
Cutuquei-a de leve, ela abriu olho e sorriu.
-oi. –disse com dificuldade.
-oi, sabe o quanto eu me preocupei? O que você já aprontou?
-sabe como é, auto piedade.
Naquela hora, eu vi a mulher que eu queria ver. O general estava morto, e ela bem viva.
Cuidei dela por cada segundo naquele hospital, e até por uns dias depois também. Vivia exausto, não conseguia mais escrever, só podia pensar nela, só queria ver ela bem.
Numa dessas manhãs ordinárias de domingo, na cama dela, em mais uma daquelas noites onde eu passei olhando ela a noite inteira, e dormido só quando o amanhecer chega, ela me acordou.
-Mike, acorda.
-oi meu amor.
-Preciso que você vá embora.
Não disse nada, levantei da cama, vesti a calça e a camiseta, acendi um cigarro e fui.
Afinal, o general não tinha morrido, ele só estava dormindo.
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