Ouvindo algum rockstar morto, aqui tô eu de novo, sonhando.
É uma merda sonhar, porquê eles podem me ouvir, podem me ver sem ao menos
estarem perto de mim.
Suas máquinas e soldados podem sentir o medo como todos aqueles felinos selvagens que eles foram responsáveis por dizimar e extinguir da face desse planeta carcomido que vivo.
Em minha juventude, uma jovem incerta certa vez me presenteou com um dos melhores textos que já tive o prazer de me deleitar: era sobre um jovem que tentava suicídio enquanto implorava e gritava por sua mãe, no parapeito de um prédio. Mas a história não era o melhor. A construção sim. Parece que sua construção era claustrofóbica, desesperadora, como se cada caractere fosse colocado ali como cada tijolo do prédio que o jovem se encontrava. Nunca fui muito fã do suicídio como método de saída, mas cada um é cada um. Mas aquele texto é mais bonito que qualquer coisa que venha a escrever.
Sentado no meu calabouço eu vejo todas aquelas telas e programas de hackers que eu construí para batalhar com literatura todo um sistema que eu ainda fazia parte. Literatura? SIM, LITERATURA. É como bater em uma metralhadora com um graveto. O problema é que cada vez mais loucos sentem vontade de pegar essa merda de graveto e batalhar a metralhadora.
Esse era meu serviço. Levar jovens anarquistas a pegar o graveto. Isso mesmo, como cachorrinhos. Mas nem os cachorros raivosos que sabiam atirar sabiam disso, por isso me escondia, como um lunático. O grande dilema moderno: faço um caralho de coisas pra ganhar um dinheiro absurdo e não ter onde gastar. O beatnik-pró-governamental-moderno era o que eu era. Patético, cada vez mais gordo, mais inteligente, mais lunático, cada vez mais acreditando no papel que eu criara.
Um fatídico dia me vi sendo invadido pelos porcos de fuzil, máscara e farda negra, prontos pra me fuzilar, procurando a porra do graveto. Mas era lógico que eu não tinha um graveto. Eu tinha metralhadora, e sabia usar. Say hello to my big friend (ra-ta-ta-ta). Ganhei algum tempo, subi as escadas, as velhas escadas do calabouço até a cobertura cheia de antenas analógicas (nem lembrava que elas existiam).
Os tiros acertavam tudo, menos eu. Me sentia um fantasma de qualquer filme de ação pastelão dos anos 2000. Cheguei ao Parapeito. Tentei de tudo para convencer os tiras que eu estava do lado deles, mas eles disseram que todos tentavam o mesmo. Era lógico, eu criei a porra do manual. “Negue tudo, completamente, será sua única chance de sobreviver”. Mas não, quando alguém negava e dizia que estavam ao seu lado, era o código de “me matem, sou anarquista”. Criei as regras, mas esqueci do código de segurança, 200 anos e eu não o fiz. “Tão inteligente, mas tão burro”, lembro da minha mãe dizendo. Era a frase preferida dela.
Pedi pra fumar um cigarro, eles deixaram. Minha metralhadora já estava no chão e a deles apontada pra mim, mesmo assim senti uma cumplicidade ali, de colegas de trabalho, ou algo assim.
Acabei o cigarro.
joguei ele no chão.
Estão esperando algo épico, né?
Não vai acontecer nada.
Eu só lembrei do texto da menina, o mesmo desespero, a mesma claustrofobia, a mesma pontuação grudada uma na outra. A mesma lembrança da mamãe.
Gritei a minha e me joguei.
Acordei, tinha 21 anos e morava na casa da mãe. Ah, não. Fui na área, acendi um cigarro e pensei o quão a minha vida era patética. Mas fiquei feliz: não era só a minha. Escrevi um texto pra mim mesmo no futuro e fui fazer um café. Agradeci aos céus a calmaria patética de cada dia. Cada um luta com o que tem.
Suas máquinas e soldados podem sentir o medo como todos aqueles felinos selvagens que eles foram responsáveis por dizimar e extinguir da face desse planeta carcomido que vivo.
Em minha juventude, uma jovem incerta certa vez me presenteou com um dos melhores textos que já tive o prazer de me deleitar: era sobre um jovem que tentava suicídio enquanto implorava e gritava por sua mãe, no parapeito de um prédio. Mas a história não era o melhor. A construção sim. Parece que sua construção era claustrofóbica, desesperadora, como se cada caractere fosse colocado ali como cada tijolo do prédio que o jovem se encontrava. Nunca fui muito fã do suicídio como método de saída, mas cada um é cada um. Mas aquele texto é mais bonito que qualquer coisa que venha a escrever.
Sentado no meu calabouço eu vejo todas aquelas telas e programas de hackers que eu construí para batalhar com literatura todo um sistema que eu ainda fazia parte. Literatura? SIM, LITERATURA. É como bater em uma metralhadora com um graveto. O problema é que cada vez mais loucos sentem vontade de pegar essa merda de graveto e batalhar a metralhadora.
Esse era meu serviço. Levar jovens anarquistas a pegar o graveto. Isso mesmo, como cachorrinhos. Mas nem os cachorros raivosos que sabiam atirar sabiam disso, por isso me escondia, como um lunático. O grande dilema moderno: faço um caralho de coisas pra ganhar um dinheiro absurdo e não ter onde gastar. O beatnik-pró-governamental-moderno era o que eu era. Patético, cada vez mais gordo, mais inteligente, mais lunático, cada vez mais acreditando no papel que eu criara.
Um fatídico dia me vi sendo invadido pelos porcos de fuzil, máscara e farda negra, prontos pra me fuzilar, procurando a porra do graveto. Mas era lógico que eu não tinha um graveto. Eu tinha metralhadora, e sabia usar. Say hello to my big friend (ra-ta-ta-ta). Ganhei algum tempo, subi as escadas, as velhas escadas do calabouço até a cobertura cheia de antenas analógicas (nem lembrava que elas existiam).
Os tiros acertavam tudo, menos eu. Me sentia um fantasma de qualquer filme de ação pastelão dos anos 2000. Cheguei ao Parapeito. Tentei de tudo para convencer os tiras que eu estava do lado deles, mas eles disseram que todos tentavam o mesmo. Era lógico, eu criei a porra do manual. “Negue tudo, completamente, será sua única chance de sobreviver”. Mas não, quando alguém negava e dizia que estavam ao seu lado, era o código de “me matem, sou anarquista”. Criei as regras, mas esqueci do código de segurança, 200 anos e eu não o fiz. “Tão inteligente, mas tão burro”, lembro da minha mãe dizendo. Era a frase preferida dela.
Pedi pra fumar um cigarro, eles deixaram. Minha metralhadora já estava no chão e a deles apontada pra mim, mesmo assim senti uma cumplicidade ali, de colegas de trabalho, ou algo assim.
Acabei o cigarro.
joguei ele no chão.
Estão esperando algo épico, né?
Não vai acontecer nada.
Eu só lembrei do texto da menina, o mesmo desespero, a mesma claustrofobia, a mesma pontuação grudada uma na outra. A mesma lembrança da mamãe.
Gritei a minha e me joguei.
Acordei, tinha 21 anos e morava na casa da mãe. Ah, não. Fui na área, acendi um cigarro e pensei o quão a minha vida era patética. Mas fiquei feliz: não era só a minha. Escrevi um texto pra mim mesmo no futuro e fui fazer um café. Agradeci aos céus a calmaria patética de cada dia. Cada um luta com o que tem.
