E lá estava eu, dentro do banheiro daquele quarto em quase-penumbra ajudando o velhinho quando olha pela janela articulada no corredor e lá está ela, parada, estática, letárgica, olhando pra mim: assim com um quase sorriso, com a cabeça e o capuz preto inclinados pra esquerda como um gatinho curioso. Me assustei, arregalei os olhos, busquei o fôlego, e busquei ficar calado pra não assustar o seu Sebastião (o velhinho). Acabamos, deitei ele na cama e saí lá fora, com as pernas tremendo, as mãos suadas e o medo exalando em meus poros. -Boa noite-, ela me disse. -B-boa noite (?)-, respondi, incrédulo. A voz era grave e macia, uma mistura de Maria Gadú com Ana Carolina. Desenvolvemos um diálogo breve de como eu não precisava ter medo, e como ela começaria o trabalho de acalmar o Tião para fazer o caminho mais leve e tranquilo. Perguntei porquê ela não podia simplesmente leva-lo, ela respondeu que ele tinha bônus com o cara lá de cima e que ele precisava estar completamente pronto. Naquela noite Tião não acordou mais pra ir no banheiro, sua Glicemia bateu 42 (o normal é 100+), se mijou todo, se cagou todo, um arregaço. Quando o acordei pra dar seu banho cotidiano, mesmo todo caga, mijado, onde sua dignidade deveria estar bem menor que sua glicemia, ele me dá um sorriso com os olhinhos fechados e fala "Bom dia, meu filho, dormiu bem? Vamos lá." Lembrei da morte me dizendo que todos nós vamos, todos nós temos alguns créditos e temos exatamente o que merecemos. Que baboseira sem fim, achei que fosse mais dramático, mais poético. Achei que a morte fosse mais intensa, achei que fosse cruel. Mas é só mais um final de ciclo, apenas mais um termina-começa tedioso.
Acendi um cigarro do lado da lápide do Tião, no epitáfio tava escrito: "Obrigado meu Deus.", Dei uma risada seguida de tosse.
"Vai com Deus meu velho, Boa viagem."
Olhei pra trás, lá estava ela, a uns 7 passos me olhando, dessa vez sem sorrisinho ou simpatia. Agradeci, pelo menos será rápido e sem blablablás. "Boa Noite", me disse ela com os olhos brilhando em vermelho e um sorriso maníaco, a foice mais afiada que uma espada samurai. Sorri e cumprimentei de volta. "Boa noite, velha amiga".
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