Conheci ela de um jeito um pouco patético, confesso. Era quase final da noite, eu estava em um desses bares legais, daqueles que consigo me sentir perfeitamente encaixado: música alta, gente estranha, muitos, mas muitos cigarros e cerveja. Era um lançamento de uma coletânea de alguns livros e contos de merda, esse dia. A cerveja estava muito cara, ou eu muito pobre, a mesa de sinuca estava ocupada por algumas bundas flácidas de mulheres querendo se insinuar para uma rodinha de "escritores malditos", a banda tocando era muito boa para uma sonoplastia tão ruim, o lugar estava muito escuro, e nas duas divisórias do banheiro tinham pessoas se atracando (juro que não consegui distinguir se eram brigas ou amassos), com todas essas condições, só me restava fumar um cigarro lá fora. Eu estava tentando parar, mas as vezes as situações da vida te obrigam a causar sua própria morte, seja de uma maneira lenta e totalmente deliciosa, ou de uma forma brusca e totalmente indolor, e aquela noite tive a incontestável prova disso.
Enquanto fumava meu cigarro que roubei do maço do meu amigo, junto com ele, Jade aparece, perseguida por um gordo, que parecia ter vindo direto do inferno, mas me parecia totalmente simpático:
_Jade, pelo amor de satã, não vá embora assim, não quer que eu dirija pra você?
_Sai daqui tiozinho, sei bem me controlar, porra!
Então ela entrou no carro e colocou pra tocar no som uma música bem animada enquanto o gordo infernal dizia para nós pedirmos para ela colocar um som para mante-la ali mais um pouco, depois de feito o pedido, disse: "Não aguento mais isso não, se quiser morrer, que morra." Sei que ele não falava sério, sei que ele realmente queria cuidar dela, mas acabou indo embora mesmo assim. Então Jade sai do carro, e me presenteia com a dança mais sincera que já vi, e me chama para dançar com ela:
_Não sei dançar não, moça.
_E daí? Vem logo! -Enquanto isso meu amigo, que já estava com uma garota, ficou me incentivando, junto com a garota dele: "Vai Michael, vai seu merda", e eu acabei indo.
Entrei em um espaço paralelo ali com Jade, naquela dança dança embriagada e desajeitada, um presente dos Deuses, ou de Jade, sei lá eu. Jade então volta para o carro, procura algo em sua bolsa, um cigarro talvez, pois já tinha me roubado dois! Ela faz alusão de querer ligar a chave na ignição, eu tento a enrolar mais um pouco:
_Não, tenho que ir pra casa, cara.
_Quantos anos você tem?
_Trinta e cinco.
_Tá procurando o quê aí? Tem namorado ou namorada? -Ela riu.
_Não sei ainda, mas tenho um namorado e ele mora do lado da minha casa.
_Então ele deixa uma moça linda como você é, vir aqui sozinha e se sujeitar a isso?
_É, tanto faz. -Disse Jade, um pouco irritada.
_Certeza que não quer que eu dirija pra você?
_Não. -Quase fechou a porta na minha mão, ligou a ignição, e saiu ziguezagueando com o corsa branco.
Cheguei em casa, ainda um pouco alterado, eram quase seis da manhã. Me despenquei na cama. Bebês não dormem tão bem assim. No outro dia, lá pelas três da tarde, acordo, acendo meu cigarro e procuro algo para o almoço, ligo a tevê (raramente faço isso), e começo minha obra-prima: Miojo com queijo e bisnaguinha frita na manteiga. Uma notícia me chama atenção no noticiário: "Mulher de trinta e cinco anos morre em cruzamento da av. caralho a quatro. Olhei meu cigarro e disse: "Prefiro meu próprio jeito de me matar, lento e delicioso". Vá em paz Jade.

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