domingo, 23 de fevereiro de 2014
O mediano.
Enquanto eu esperava o moto-taxi, lia um livro legal, na recepção do prédio, eu me identificava com o personagem, que clichê.
Estava frio, muito frio, frio pra caralho mesmo. Nem eu sou tão frio daquele jeito, e olha que eu gosto de frio, digo, de ser frio.
Ele disse “dez horas, mano”, já eram quase meia-noite. Vejam só, passo tanto respeito, que nem o cara que eu vou pagar, chega no horário marcado.
A porra da corrente soltou no meio do caminho, no meio de um monte de drogadinhos, usuários de crack e essa merda toda. Uma coisa me admira nessas pessoas, eles tiveram a coragem de abandonar tudo, abandonaram toda a paz, a família, muitos fizeram sua família ali, os laços divididos em quantas pedras podiam fumar. Mas em contrapartida, todos abandonaram tudo isso, em prol de algo, que os teve por completo. Que inveja, eu queria ter alguém completo, ou até ser possuído por completo, por alguém. Satã seria muito fraco, tanto quanto deus. Gastei cinco cigarros, dois comigo, e três com os noiados: “valeu aê tio”, “pode crê, gurizinho”, “boto fé, ow”. É, até essas pessoas ainda tem o senso de agradecer quando algo lhes é proporcionado.
.....
Mais cedo, no mesmo dia, eu lanchava bolo, com café, suco, pão e requeijão, com gosto de fartura. Fartura não só de mantimentos, de comida, como de afeição. As namoradas as vezes fazem isso.
Assistimos vídeos, ouvimos música, até aprendi a tocar “brilha, brilha estrelinha” no violino, foi uma tarde/noite agradável, muito agradável.
É, talvez ela seja meu crack.
Talvez eu seja um drogado, mas sem o mesmo senso de agradecimento.
Seu mal agradecido do caralho.
terça-feira, 4 de fevereiro de 2014
Veias.
Estou cansado. Depois de um bom tempo, estou cansado de verdade, aquele cansaço de dormir cedo e ter vontade de ajustar a vida. "Parei de fumar", "vou dormir cedo", "eu te amo", são mentiras humanas recorrentes, mas quando se tem um dia de cansaço bom, um dia útil de verdade, essas mentirinhas talvez possam se tornar verdade por um curto período, apenas talvez.
E também tem essa garota, essa coisa linda e inteligente, orgulhosa e ausente, ruiva e morena. Apareceu e me fez repensar completamente como as coisas costumam funcionar por aqui. As veias deles aparecem como se fossem algum mapa hidrográfico de alguma ilha paradisíaca e fria, bem fria, branca como a neve. Seu jeito de ser diferente sem se esforçar me encantou mais do que qualquer uma dessas "hipsters/hispsteres" (não sei o plural dessa coisa), de cabelo vermelho ferrugem e cigarro na boca, mas que por dentro não valem nem 1/4 do cigarro que fumam, e na verdade só clamam por atenção. Você não, você tem essa simplicidade, essa autenticidade de gritar quando precisa e quando não precisa, e tem também esses modos, bem comportada, se misturando e as vezes enrolando tudo. Você é você. E é isso que me encanta mais, talvez. Eu não sei quem eu sou, espero que eu possa ser eu o suficiente pra você. Agora são dez da noite e eu já estou com sono, obrigado pelo dia maravilhoso. Espero que possa me alegrar por muito mais dias, e até mais, garota das veias aparentes. Se cuida.
E também tem essa garota, essa coisa linda e inteligente, orgulhosa e ausente, ruiva e morena. Apareceu e me fez repensar completamente como as coisas costumam funcionar por aqui. As veias deles aparecem como se fossem algum mapa hidrográfico de alguma ilha paradisíaca e fria, bem fria, branca como a neve. Seu jeito de ser diferente sem se esforçar me encantou mais do que qualquer uma dessas "hipsters/hispsteres" (não sei o plural dessa coisa), de cabelo vermelho ferrugem e cigarro na boca, mas que por dentro não valem nem 1/4 do cigarro que fumam, e na verdade só clamam por atenção. Você não, você tem essa simplicidade, essa autenticidade de gritar quando precisa e quando não precisa, e tem também esses modos, bem comportada, se misturando e as vezes enrolando tudo. Você é você. E é isso que me encanta mais, talvez. Eu não sei quem eu sou, espero que eu possa ser eu o suficiente pra você. Agora são dez da noite e eu já estou com sono, obrigado pelo dia maravilhoso. Espero que possa me alegrar por muito mais dias, e até mais, garota das veias aparentes. Se cuida.
quarta-feira, 25 de dezembro de 2013
Quarto 27.
Chegamos no quarto, número 27. Você estava linda, pra
variar. Seus cabelos negros refletiam no piso branco, seu vestido quase nem
existia mais, de tanta vontade que eu tinha de tira-lo. Minha camisa era da cor
do piso, chegava até a ser patético. Você soltou cada botão com a boca, me
olhando daquele jeito safado, que só você tem, um olhar malicioso, quente, um
sorriso pendendo pro lado direito enquanto você de quatro, ia engatinhando na
cama, em cima de mim, provocando e deixando bem claro que aquela noite seria
inesquecível, e foi.
Você deixou o tomara-que-caia cair, deitou de costas pra mim, me deixando com essa sua bunda esculpida pelos deuses e pediu: “desabotoa meu sutiã, vai”, eu desabotoei, e beijei bem de leve suas costas, de baixo até em cima, lambi seu pescoço e vi sua respiração alterar, ficar mais calma, mais rápida, mais excitante. Você se virou, me virou, sentou em mim e foi rastejando bem devagar, me encarando com esses olhos verdes e penetrantes, e por falar em penetração, chegamos nessa parte. Quando você deitou, abriu as pernas e todo aquele brilho me ocorreu, o brilho da boceta mais linda do mundo, fiquei sem ação, nenhuma reação veio à tona, fiquei atônito. Vi todas as cores daquele quarto monocromático dançarem diante de mim, enquanto você cavalgava. Deus! Como você cavalga bem. Acabamos, gozamos e rimos. Você inventou de usar o pole dance do quarto, arteira do jeito que é. Nua, foi escalando e sorrindo pra mim, um sorriso mais sincero e infantil dessa vez, o olhar também era mais brando. Escalou tanto que não viu o teto do quarto, bateu a cabeça, e por um instinto humano, foi pegar na cabeça, pra ver onde tinha sido. E como uma fruta podre, ou uma gota de chuva ácida, você caiu. Eu comecei a rir, e você a chorar, gritando desesperadamente que tinha quebrado alguma coisa nas costas. Me preocupei, paguei o motel, te deitei no banco de trás do carro, acendi um cigarro e te levei até o hospital. Lá tiraram um raio-x do seu lindo cóccix, não tinha nada, só alguns traumas isolados na região, nada que alguns desses analgésicos populares não resolvam.
Chegamos na sua casa, fomos pro quarto, tirei minha camisa, você seu vestido. Deitei e você estava escolhendo seu pijama. A luz acesa, você nua com alguns pontinhos roxos nas costas, coisa linda.
-Best boyfriend ever, que porra é essa?
-é um pijama que meu ex me deu.
-e por quê você ainda guarda essa merda?
-porquê é confortável, uai. Sem sentimentos.
-vai se foder.
-vai você. Falando nisso, quero que você vá embora, pra ficar com aquela vaca da Isis, que você tanto conversa.
-beleza, tchau, até nunca mais.
Acendi dois cigarros de uma vez, vesti minha roupa e entrei no carro. Nesse dia descobri que o número vinte e sete me dá azar. E que alguém sempre perde.
Você deixou o tomara-que-caia cair, deitou de costas pra mim, me deixando com essa sua bunda esculpida pelos deuses e pediu: “desabotoa meu sutiã, vai”, eu desabotoei, e beijei bem de leve suas costas, de baixo até em cima, lambi seu pescoço e vi sua respiração alterar, ficar mais calma, mais rápida, mais excitante. Você se virou, me virou, sentou em mim e foi rastejando bem devagar, me encarando com esses olhos verdes e penetrantes, e por falar em penetração, chegamos nessa parte. Quando você deitou, abriu as pernas e todo aquele brilho me ocorreu, o brilho da boceta mais linda do mundo, fiquei sem ação, nenhuma reação veio à tona, fiquei atônito. Vi todas as cores daquele quarto monocromático dançarem diante de mim, enquanto você cavalgava. Deus! Como você cavalga bem. Acabamos, gozamos e rimos. Você inventou de usar o pole dance do quarto, arteira do jeito que é. Nua, foi escalando e sorrindo pra mim, um sorriso mais sincero e infantil dessa vez, o olhar também era mais brando. Escalou tanto que não viu o teto do quarto, bateu a cabeça, e por um instinto humano, foi pegar na cabeça, pra ver onde tinha sido. E como uma fruta podre, ou uma gota de chuva ácida, você caiu. Eu comecei a rir, e você a chorar, gritando desesperadamente que tinha quebrado alguma coisa nas costas. Me preocupei, paguei o motel, te deitei no banco de trás do carro, acendi um cigarro e te levei até o hospital. Lá tiraram um raio-x do seu lindo cóccix, não tinha nada, só alguns traumas isolados na região, nada que alguns desses analgésicos populares não resolvam.
Chegamos na sua casa, fomos pro quarto, tirei minha camisa, você seu vestido. Deitei e você estava escolhendo seu pijama. A luz acesa, você nua com alguns pontinhos roxos nas costas, coisa linda.
-Best boyfriend ever, que porra é essa?
-é um pijama que meu ex me deu.
-e por quê você ainda guarda essa merda?
-porquê é confortável, uai. Sem sentimentos.
-vai se foder.
-vai você. Falando nisso, quero que você vá embora, pra ficar com aquela vaca da Isis, que você tanto conversa.
-beleza, tchau, até nunca mais.
Acendi dois cigarros de uma vez, vesti minha roupa e entrei no carro. Nesse dia descobri que o número vinte e sete me dá azar. E que alguém sempre perde.
segunda-feira, 2 de dezembro de 2013
General.
“Não desperdiçarei meu ódio com você”, foi isso que ela disse. Mesmo depois de esmagada pelas minhas lamentações, ela continuava a se fazer de durona. Filha da puta. Ela era um general emocional, conseguia imaginar seus sentimentos lá dentro, de queixo erguido, com uma cara serena e firme, um olhar cruel e uma mão pronta pra matar.
Deixei a casa com o sentimento de impotência, de não ter feito tudo que podia, afinal, eu era um bosta, ou sempre fui, sei lá.
No outro dia, recebi a ligação, aquela que todos temem.
-alô.
-Senhor, aqui é do hospital salamandra, achamos seu número como preferido no dispositivo móvel da paciente.
-que merda é essa? Paciente do quê?
-Ela tentou cometer um suicídio, o senhor poderia estar comparecendo aqui no hospital..-sei onde fica essa porra- desliguei.
Odiava gerúndio e telefonistas, tinha vontade enfiar uma cenoura no rabo de cada uma que fala “o senhor podia estar”.
Cheguei no hospital, falei o nome dela pra recepcionista.
-quarto 308. –ela disse depois de uma cara espantada, de que a coisa estava bem feia.
-ok.
Subi as escadas, andei pelo corredor com as portas numeradas, naquela penumbra assustadora que é todo hospital. Girei a maçaneta, entrei, e lá estava ela: parecendo um cadáver, deitada estritamente reta, com as pernas cruzadas e as mãos sobre o peito.
Cutuquei-a de leve, ela abriu olho e sorriu.
-oi. –disse com dificuldade.
-oi, sabe o quanto eu me preocupei? O que você já aprontou?
-sabe como é, auto piedade.
Naquela hora, eu vi a mulher que eu queria ver. O general estava morto, e ela bem viva.
Cuidei dela por cada segundo naquele hospital, e até por uns dias depois também. Vivia exausto, não conseguia mais escrever, só podia pensar nela, só queria ver ela bem.
Numa dessas manhãs ordinárias de domingo, na cama dela, em mais uma daquelas noites onde eu passei olhando ela a noite inteira, e dormido só quando o amanhecer chega, ela me acordou.
-Mike, acorda.
-oi meu amor.
-Preciso que você vá embora.
Não disse nada, levantei da cama, vesti a calça e a camiseta, acendi um cigarro e fui.
Afinal, o general não tinha morrido, ele só estava dormindo.
segunda-feira, 4 de novembro de 2013
Mais um dia.
Alto, loiro, um porte inigualável, uma cicatriz que lhe
atravessava o olho, com duas armas no coldre e uma vontade sangue que se
conseguia sentir até o cheiro. Dinheiro, bebida, mulheres e mais de noventa
assassinatos nas costas. Esse era meu pai, e eu, provavelmente era sua única
fraqueza. Toda noite ele se sentava comigo na frente de nossa casa bem
escondida e me contava as histórias (muito boas), de todos os quarenta estados
que ele não podia atravessar, e também de quando ele atravessou a Califórnia, reto
no deserto até Dashville só com uma garrafa de Rum e uma colt com duas balas.
Até hoje, a polícia não sabe onde meu pai está, o velho morreu antes que eles
fizessem algo. Morreu de cirrose, bebia demais. A morte do meu velho, não
alterou muita coisa no meu destino, não. Naquele lugar, que era bem escondido,
se ergueu uma cidade chamada Tombstone. Como era um local difícil de se
encontrar, era um dos principais refúgios de bandidos e gente da pior espécie,
então a cidade cresceu com esse tipo de gente, e sem alternativas, viraram meus
conterrâneos.
Todas as noites eram inebriadas pelas luzes das portarias do bordéis, e se podia ver com facilidade assassinos como meu pai, andando livremente, no entra e sai dos cabaréis. E eu, como era de se imaginar, segui esse caminho, fui produto da sociedade. A cidade tinha um bar só, se chamava “fim do fundo do inferno” , onde não se bebia em copos, e sim direto nos barris. Confusão, sinuca e carteado de todos os estilos, toda noite era o mal pela raiz.
Na cidade, havia também, um pouco mais afastado da “zona do caos”, uma capela e um convento, o “Santa Madre”. Na capela, a maioria de “fiéis” eram as putas, que iam rezar para não serem mortas por algum bêbado muito exaltado. A única exceção masculina, na capela, era o padre, que era o único filho da puta que eu conheci que conseguiria se manter puro no meio daquela putaria toda. Era um rebelde da babilônia, uma virgem em Sodoma, ou em Gomorra. Esse cara tinha meu respeito. Toda madrugada, ele saía de sua casa, e atravessava a zona agarrando seu crucifixo, esperando pelo amanhecer. “Senhor, me mantenha longe dessa tinta venenosa, que assina a vida de todas as pessoas dessa cidade, e não me dê agora a colher para eu cavar minha cova. Preciso completar minha missão aqui, Amém”. Ele orava essas palavras por todo o percurso, até chegar na capela.
Em uma noite, tudo na cidade saiu do controle, e nós ocupamos o convento, e transformamos ele em “Santa Madre Casino”, frequentado só pelo pior da bandidagem, o santa madre era uma extensão do bar da cidade, e o indivíduo só podia ir embora se estivesse bebum.
Então na manhã seguinte, em sua caminhada, não havia tanta gente na zona, e tudo estava mais calmo, exceto pelos usuais tiros de canhão e o cheiro insuportável de carniça. Ele atravessou a zona, e subindo o pequeno morro, sentiu o cheiro de enxofre, que se mixou com o de carniça, e ele teve vontade de desmaiar, vomitar, morrer, nem ele sabia direito. Quando dirigiu os olhos para a capela ela estava só os frangalhos, as cinzas caíam e seguiam o vento. Estava negra como as trevas e as mentes daqueles pecadores. Seguiu o caminho e entrou no casino, viu todas as feiras que ele ensinou e cuidou com tanto carinho, dançando nuas no balcão do bar. Aquilo era, no mínimo, três vezes pior que Sodoma e Gomorra juntas. Um grandalhão que bebia e arrotava sem parar, o agarrou pelo colarinho.
-Aqui não é lugar pra gente como você.
O padre orou baixinho a oração de sempre, do caminho, esperando alguma ação do senhor.
-O quê? Colher, cova? Tá maluco?
Aceitando seu destino, o padre disse:
-Meu senhor me perdoe por adentrar nesse antro pecaminoso. E caro irmão, eu te perdôo.
-Esse velho tá de sacanagem comigo.
O grandalhão arremessou o padre pelo vitral gótico, ele caiu ensanguentado no chão pra fora do casino. O grandalhão era ateu, e tinha raiva de qualquer tipo de religião. Apontando a arma para o padre, disse:
-Religião é ódio, religião é medo, religião é guerra. Religião é estupro, a religião é obscena, a religião é uma puta. – E atirou.
No final das contas, a tinta venenosa era o sangue do padre, e ele recebeu sua colher para cavar sua própria cova. Ali, era só mais um vagabundo com uma bala na cabeça. Ninguém se importou, o dono da cidade estava caído perto dali, extremamente embriagado. E lá se foi mais uma noite em Tombstone.
Todas as noites eram inebriadas pelas luzes das portarias do bordéis, e se podia ver com facilidade assassinos como meu pai, andando livremente, no entra e sai dos cabaréis. E eu, como era de se imaginar, segui esse caminho, fui produto da sociedade. A cidade tinha um bar só, se chamava “fim do fundo do inferno” , onde não se bebia em copos, e sim direto nos barris. Confusão, sinuca e carteado de todos os estilos, toda noite era o mal pela raiz.
Na cidade, havia também, um pouco mais afastado da “zona do caos”, uma capela e um convento, o “Santa Madre”. Na capela, a maioria de “fiéis” eram as putas, que iam rezar para não serem mortas por algum bêbado muito exaltado. A única exceção masculina, na capela, era o padre, que era o único filho da puta que eu conheci que conseguiria se manter puro no meio daquela putaria toda. Era um rebelde da babilônia, uma virgem em Sodoma, ou em Gomorra. Esse cara tinha meu respeito. Toda madrugada, ele saía de sua casa, e atravessava a zona agarrando seu crucifixo, esperando pelo amanhecer. “Senhor, me mantenha longe dessa tinta venenosa, que assina a vida de todas as pessoas dessa cidade, e não me dê agora a colher para eu cavar minha cova. Preciso completar minha missão aqui, Amém”. Ele orava essas palavras por todo o percurso, até chegar na capela.
Em uma noite, tudo na cidade saiu do controle, e nós ocupamos o convento, e transformamos ele em “Santa Madre Casino”, frequentado só pelo pior da bandidagem, o santa madre era uma extensão do bar da cidade, e o indivíduo só podia ir embora se estivesse bebum.
Então na manhã seguinte, em sua caminhada, não havia tanta gente na zona, e tudo estava mais calmo, exceto pelos usuais tiros de canhão e o cheiro insuportável de carniça. Ele atravessou a zona, e subindo o pequeno morro, sentiu o cheiro de enxofre, que se mixou com o de carniça, e ele teve vontade de desmaiar, vomitar, morrer, nem ele sabia direito. Quando dirigiu os olhos para a capela ela estava só os frangalhos, as cinzas caíam e seguiam o vento. Estava negra como as trevas e as mentes daqueles pecadores. Seguiu o caminho e entrou no casino, viu todas as feiras que ele ensinou e cuidou com tanto carinho, dançando nuas no balcão do bar. Aquilo era, no mínimo, três vezes pior que Sodoma e Gomorra juntas. Um grandalhão que bebia e arrotava sem parar, o agarrou pelo colarinho.
-Aqui não é lugar pra gente como você.
O padre orou baixinho a oração de sempre, do caminho, esperando alguma ação do senhor.
-O quê? Colher, cova? Tá maluco?
Aceitando seu destino, o padre disse:
-Meu senhor me perdoe por adentrar nesse antro pecaminoso. E caro irmão, eu te perdôo.
-Esse velho tá de sacanagem comigo.
O grandalhão arremessou o padre pelo vitral gótico, ele caiu ensanguentado no chão pra fora do casino. O grandalhão era ateu, e tinha raiva de qualquer tipo de religião. Apontando a arma para o padre, disse:
-Religião é ódio, religião é medo, religião é guerra. Religião é estupro, a religião é obscena, a religião é uma puta. – E atirou.
No final das contas, a tinta venenosa era o sangue do padre, e ele recebeu sua colher para cavar sua própria cova. Ali, era só mais um vagabundo com uma bala na cabeça. Ninguém se importou, o dono da cidade estava caído perto dali, extremamente embriagado. E lá se foi mais uma noite em Tombstone.
sexta-feira, 27 de setembro de 2013
Café.
Eram dez da manhã, meu celular gritava uma música punk qualquer, parece que tentando me fazer levantar, desesperadamente. Maria estava na cozinha, preparando um café e o almoço ao mesmo tempo. Enquanto eu lhe dava bom dia só de cueca na cozinha, acendi um cigarro enquanto apreciava aquele olhar morto pela manhã, querendo vida, com Maria sorrindo, deus! Que sorriso lindo, grande e expressivo, e era lá que eu pagava meus pecados, toda santa manhã. Ela me deu uma xícara de café, tomei um gole e cuspi.
_Que merda é essa, Maria?
_Café?
_Não chegou nem perto. -Respondi, virando as costas.
De dentro do banheiro conseguia escutar sua respiração chorosa e abafada na cozinha, mixando-se com o tilintar das panelas. Liguei o chuveiro, e deixei a água levar toda a culpa de ter feito ela chorar. Maria era o tipo de mulher que não foi feita para chorar, era linda e amável, com grandes olhos castanhos, superficiais e cheios de amor, e um corpo que me fazia querer fodê-la a qualquer segundo. Saí do banheiro, me enxuguei, vesti a calça jeans e fui almoçar. Ela estava em pé atrás da pia, lavando algo, abracei-a por trás e sussurrei: "Me desculpa, vai. Por quê você não vira meu almoço agora hein?", senti sua bunda arrebitando e vi seu corpo arrepiando e o sorriso sincero e safado de sempre. Levei ela para a cama de solteiro do apartamento, e fiz como todas as outras vezes, ela nunca se cansava daquilo: chupar, gozar, foder, gozar, foder, gozar, e aí gozar mais uma vez. Encaixávamos sexualmente mais que o zeppelin na década de setenta, era o expurgo de todos os venenos exteriores, a redenção, a limpeza. Depois que acabamos, ela foi terminar o almoço e eu terminar de me arrumar de novo. Descobri que tinha perdido minha carteira em um bar ou lanchonete, sei lá. Tive que pedir dinheiro para ela, pela terceira vez aquela semana, era uma quinta-feira quente e abafada.
_Amor, preciso de vinte reais.
_Cadê seu dinheiro?
_Perdi minha carteira ontem.
_De novo, Heitor?
_Vai emprestar? Preciso ir trabalhar.
_Por quê você tá tão frio comigo? Eu te fiz algo? Eu não sou o suficiente pra você? -Disse ela, quase chorando.
_Não, meu amor. Só tô estressado algumas coisas do trabalho. -Menti descaradamente. Eu e ela sabíamos que não era isso.
Ela me deu o dinheiro e voltou pra lavar a louça do almoço, cujo eu não comi.
Saí do trabalho, fui para o bar, encontrei uma velha amiga do colegial, bebemos algumas cervejas com meus vinte reais, levei ela pro canto do bar, e comi ela ali mesmo. Sempre fazia esse tipo de coisa, sempre quando dava, e de um jeito bem cruel, e quase involuntário, eu não conseguia sentir culpa.
Logo que abri o portão de casa, senti um arrepio, um aviso de que algo tinha acontecido, nosso cachorro não veio correndo e ela não disse para ele "Quem chegou?", adentrei a cozinha e ele estava deitado, chorando baixinho, com as patas em cima de uma folha de caderno dobrada. Abri.
"Querido H., antes de tudo, para não se surpreender, quero te dizer que me enforquei. Sei o que você faz por aí, sei quantas mulheres já comeu, sei até quantas cervejas já bebeu. Sei também que te amo mais do que um dia eu entenderei, por isso me sacrifiquei por você. Fui até onde aguentei, até onde sua grosseria me deixou ir. Eu aguentaria mil anos, se eu fosse a única, mas você não pode ser de uma só, e isso é tudo que eu sou: só mais uma. Uma bem especial, talvez, mas só mais uma. Você não é homem o suficiente para ser capaz de amar, e eu não fui mulher o suficiente para tentar te ensinar. A única lição que eu te deixo de verdade, que você poderá usar para sua vida é te fazer virar homem e pensar antes de cometer seus pecados, porquê meu sorriso não estará mais lá, para pagar por você. Provavelmente agora estou do dentro do fogo, do lado do tinhoso. Tentei ser uma boa mulher, eu juro.
P.s.: Tem um café decente na cafeteira.
Com amor e vontade de ter sido mais forte, Maria."
Entrei no quarto, e a vi, pelada, roxa e um pouco vomitada, balançando macabramente ainda, com a corda amarrada na barra que eu comprei para fazer abdominais (sabia que aquela porra que nunca serviu para nada, ia me foder um dia). Fui para a cozinha, peguei a cafeteira, a xícara dela e servi o café. Antes de tomar, ouvi uma voz medonha me dizendo: "Pegue um lugar dentro do fogo com ela.", tomei mesmo assim. O gosto era ótimo, mas meu corpo rejeitou. "Sinto falta do café ruim.", eu disse. Caí. Tudo escureceu. E de repente só via chamas.
_Que merda é essa, Maria?
_Café?
_Não chegou nem perto. -Respondi, virando as costas.
De dentro do banheiro conseguia escutar sua respiração chorosa e abafada na cozinha, mixando-se com o tilintar das panelas. Liguei o chuveiro, e deixei a água levar toda a culpa de ter feito ela chorar. Maria era o tipo de mulher que não foi feita para chorar, era linda e amável, com grandes olhos castanhos, superficiais e cheios de amor, e um corpo que me fazia querer fodê-la a qualquer segundo. Saí do banheiro, me enxuguei, vesti a calça jeans e fui almoçar. Ela estava em pé atrás da pia, lavando algo, abracei-a por trás e sussurrei: "Me desculpa, vai. Por quê você não vira meu almoço agora hein?", senti sua bunda arrebitando e vi seu corpo arrepiando e o sorriso sincero e safado de sempre. Levei ela para a cama de solteiro do apartamento, e fiz como todas as outras vezes, ela nunca se cansava daquilo: chupar, gozar, foder, gozar, foder, gozar, e aí gozar mais uma vez. Encaixávamos sexualmente mais que o zeppelin na década de setenta, era o expurgo de todos os venenos exteriores, a redenção, a limpeza. Depois que acabamos, ela foi terminar o almoço e eu terminar de me arrumar de novo. Descobri que tinha perdido minha carteira em um bar ou lanchonete, sei lá. Tive que pedir dinheiro para ela, pela terceira vez aquela semana, era uma quinta-feira quente e abafada.
_Amor, preciso de vinte reais.
_Cadê seu dinheiro?
_Perdi minha carteira ontem.
_De novo, Heitor?
_Vai emprestar? Preciso ir trabalhar.
_Por quê você tá tão frio comigo? Eu te fiz algo? Eu não sou o suficiente pra você? -Disse ela, quase chorando.
_Não, meu amor. Só tô estressado algumas coisas do trabalho. -Menti descaradamente. Eu e ela sabíamos que não era isso.
Ela me deu o dinheiro e voltou pra lavar a louça do almoço, cujo eu não comi.
Saí do trabalho, fui para o bar, encontrei uma velha amiga do colegial, bebemos algumas cervejas com meus vinte reais, levei ela pro canto do bar, e comi ela ali mesmo. Sempre fazia esse tipo de coisa, sempre quando dava, e de um jeito bem cruel, e quase involuntário, eu não conseguia sentir culpa.
Logo que abri o portão de casa, senti um arrepio, um aviso de que algo tinha acontecido, nosso cachorro não veio correndo e ela não disse para ele "Quem chegou?", adentrei a cozinha e ele estava deitado, chorando baixinho, com as patas em cima de uma folha de caderno dobrada. Abri.
"Querido H., antes de tudo, para não se surpreender, quero te dizer que me enforquei. Sei o que você faz por aí, sei quantas mulheres já comeu, sei até quantas cervejas já bebeu. Sei também que te amo mais do que um dia eu entenderei, por isso me sacrifiquei por você. Fui até onde aguentei, até onde sua grosseria me deixou ir. Eu aguentaria mil anos, se eu fosse a única, mas você não pode ser de uma só, e isso é tudo que eu sou: só mais uma. Uma bem especial, talvez, mas só mais uma. Você não é homem o suficiente para ser capaz de amar, e eu não fui mulher o suficiente para tentar te ensinar. A única lição que eu te deixo de verdade, que você poderá usar para sua vida é te fazer virar homem e pensar antes de cometer seus pecados, porquê meu sorriso não estará mais lá, para pagar por você. Provavelmente agora estou do dentro do fogo, do lado do tinhoso. Tentei ser uma boa mulher, eu juro.
P.s.: Tem um café decente na cafeteira.
Com amor e vontade de ter sido mais forte, Maria."
Entrei no quarto, e a vi, pelada, roxa e um pouco vomitada, balançando macabramente ainda, com a corda amarrada na barra que eu comprei para fazer abdominais (sabia que aquela porra que nunca serviu para nada, ia me foder um dia). Fui para a cozinha, peguei a cafeteira, a xícara dela e servi o café. Antes de tomar, ouvi uma voz medonha me dizendo: "Pegue um lugar dentro do fogo com ela.", tomei mesmo assim. O gosto era ótimo, mas meu corpo rejeitou. "Sinto falta do café ruim.", eu disse. Caí. Tudo escureceu. E de repente só via chamas.
domingo, 8 de setembro de 2013
Não, espere.
A moça continuava deitada nua na mesa, enquanto o bastardo continuava a acariciar-lhe o corpo, completamente estendido, com as pernas quase juntas, com as costelas à mostra. “Isso até me excita de alguma forma”, disse ela, com aquela voz rouca de quem fuma à uns cinco anos, praticamente sem cessar. Os cabelo loiros, que saíam da mesa, formavam um caleidoscópio, refletidos pela luz do abajur que era meia fase, com a do teto, que era fluorescente, e dos olhos de seu provável assassino, que brilhavam sem cessar, observando seu brinquedinho para ser Deus. Ele encostou o dedo em sua bocetinha compacta e bem saliente, parecendo um morro, com as vegetações bem aparadas. Ela abriu a boca, gemeu de prazer, graças a mão suja de ira, que nesse momento já enfiava o dedo e vasculhava cada centímetro da ampla vagina. A vítima goza, se mija toda, o executor ri.
Na vitrola despedaçada, o som de Johnny Cash explorava o lugar, como se cada onda sonora fizesse Jane sentir um orgasmo, cada nota musical do violão de Johnny fazia ela arrepiar de prazer, enquanto, da mesma maneira das ondas, os dedos de Larry exploravam o interior daquela vagina produzindo as notas musicais dos gemidos de Jane, até o clímax se aproximar de novo, e quando Jane já se contorcia, já apertava as bordas das mesas, o desgraçado pega o bisturi, na mesa de apoio, a corta a barriga bem de leve, ela grita com o prazer da dor. Se mijou, a urina atingiu o corte, gritou de agonia dessa vez.
O potencial assassino pega um pano vermelho, enxuga o líquido laranja da barriga da jovem, e diz: “O incrível, é quem eu nem te amarrei. Você é uma puta barata mesmo, e nada mais que isso. E é por isso, só por isso que você vai morrer”. Depois de enxugar toda a barriga dela, ele pega um taco de beisebol e quebra a vitrola, já caindo aos pedaços. Pega um caco dos estilhaços da capa de acrílico, que protege o disco, e caminha na direção da mulher lá estendida. No caminho, passa por uma mesa de canto e pega seu óculos da sorte. Chega perto dela, e a luz, por algum defeito pisca, como nos filmes de terror, “Melhor assim, quero que sinta tudo de olhos bem abertos, misturando todos os sentidos”, comenta o assassino. Enquanto ele a olhava com os óculos escuros e redondos, ela podia ver seu próprio reflexo e o fitava sem cessar, o assassino sorriu e desferiu 13 golpes, uns rápidos e vigorosos, outros lentos e apáticos. No décimo quarto, que tinha como destino os olhos, na velocidade do ato, que era a de um piscar de olhos, quando a ponta ensanguentada do caco se aproximou, ela fechou os olhos.
Acordou. Estava em casa com seu marido do lado, deitado de costas para ela, em sua cama. Pensou que era ótimo estar em sua própria cama, em sua casa, do lado amor de sua vida. Virou de lado e quando percebeu em meio a meia-luz do abajur não acreditou, não podia ser, não podia! Era o assassino, com os óculos escuros e aquele sorriso maníaco. Ele a olha profundamente nos olhos, aponta a arma para o marido e diz: “Vire-o”, ela virou, e quando viu, o cara tinha 13 furos na barriga e um no olho. “Sonhos doces são feitos assim, meu bem.”, disse o bastardo. E a apagou com uma coronhada.
Duas horas depois, ela abre os olhos com dificuldade, consegue ver alguns borrões que pareciam pessoas bem estranhas, mascaradas e com roupas estranhas. Ela tenta olhar ao redor, mas seu pescoço dói muito. Ela tenta gritar, mas a voz já lhe falha e a boca está amordaçada. Quando consegue ver com clareza está dentro de um porão sujo, com várias latas, cheias de partes do corpo humano, cada uma em seu devido lugar na prateleira, imitando o formato de corpos como se fossem palitinhos desenhados, com o que pareciam ser os integrantes do slipknot. Ela fica apavorada, arregala os olhos, com todo o pavor estampado neles. O assassino chega, com a feição séria, e diz, poupando palavras: “Você é minha, nem que para isso eu tenha que te enfeitiçar. Você está vestida em mim, com todos os anéis, todos os colares, até todas as calcinhas. Eu te amo, não queria deixar isso se construir dentro de mim, mas não tive escolha”. E atira. Dois tiros, um em cada seio, e um bem no meio dos olhos, que continuaram ligeiramente abertos. “Agora você é só uma memória morta, dentro de mim”.
Larry acorda, suando e verdadeiramente desesperado. Acende um cigarro, e anda a casa inteira, para tentar esquecer, percorre cada cômodo: “Sala, ok. Quarto, ok. Cozinha, ok. Sótão, ok. Porão, o corpo ainda tá aqui. Quarto, ok. Ufa! Ainda bem que foi só um pesadelo. Não, espera!”.
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