quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Madalena.

Quero casar
de véu e grinalda
na grama descalça
com um marido lindo
rico
sagaz e perspicaz

Quero ter
três filhos
O Emílio
a Ana e a Fernanda
que serão
pra sempre crianças
lindas e comportadas
quietas e bem educadas
assim como eu
e o plebeu

Plebeu esse que eu vou foder
toda noite
Até eu não mais poder
Ou até a arma do meu marido
gritar como a foice
da morte
A morte do plebeu bêbado
O bêbado plebeu
o morto plebeu
o bêbado morto.

Sair no noticiário
com cara de Madalena
arrependida
que pena
o conto do vigário
que eu armaria
fui eu que caí
e que nem madalena
apedrejada
por uma centena
no meio da praça
pelos populares populosos
as pedras penetravam meus ossos
minhas veias
minhas teias
as hemácias jorravam no chão de concreto
os gritos cegos
as lágrimas mudas
e nada mudava
e nunca acabava
e sem jesus pra me salvar
parei de lutar
definitivamente
com a chuva de pedras despencando
constantemente.

Acordei. Me vesti e fui trabalhar
Ganhar meu dinheiro
Pra de homem nunca precisar
E com poesia, só sonhar
e nada mais
Pra não precisar

descansar em paz.


quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Indústria.

Quanto tempo se dá, até um humano se decompor totalmente, sendo devorado pela própria terra que lhe hospedou, tão cruelmente?

Tinha dez anos, quando me fazia esse questionamento.

Quando tinha vinte, me questionava como a porra da terra cruel tinha surgido, e para onde iríamos, depois que fôssemos engolidos e devorados por essa merda. Eu fumava feito uma indústria em ritmo total de produção. Eu era uma indústria. Produzia poemas, cartas, contos e esse tipo de merda, enquanto escutava o zeppelin, pink floyd e essas merdas boas aí. E fumava demais. Sempre achei que morreria de enfizema pulmonar ou algo do tipo, aos cinquenta, ou sessenta. Sempre achei que um câncer me definharia até a morte lenta e já avisada pelos meus familiares fingindo estarem preocupados.

Aos trinta, bem, não cheguei aos trinta.
Morri com um café envenenado, por uma namorada neurótica e que tinha sérios problemas mentais. Uma delas. O cigarro ainda queimava, um incêndio se iniciara no tapete, e eu, agonizando estático, as reações me falharam. O ar já era. A única coisa que ainda funcionava na indústria eram as câmeras, meus olhos ardiam, minhas visão ficava turva, o laranja específico das chamas invadia meu cérebro que já não pensava em absolutamente nada, eu morria, mas não morria. Era mais louco que qualquer droga já experimentada, era uma experiência rica, detalhada e inconscientemente consciente. E dela não se tinha volta. Fiz o caminho aos vinte e nove.

A terra me engoliu, os vermes me devoraram. Morri sem ter a porra das respostas. Só servi para o entretenimento das pessoas, que gostavam de desgraça. A humanidade em geral. Apreciamos a desgraça porque somos uma. E das feias.

terça-feira, 27 de maio de 2014

Vênus.





Entrei no bar e pendurei meu casaco no balcão.
-Me vê um whisky aí.
As mulheres me olhavam, não sei se por interesse, ou por desprezo. Quase sempre ser um escritor solitário dá certo com elas. Acho que é instinto materno de quer cuidar de alguém/algo.
O dia era frio, o que não era normal na cidade, afinal era um calor infernal todo santo dia. Mas sempre tinha a semana onde a população nativa pagava seus pecados, e como fazia frio!
Meu whisky chegou, do jeito que eu queria, sem gelo, o copo e a garrafa, um do lado do outro, alinhados. O garçom sabia, sempre bebia ali. Olhei em volta do bar, e não vi nada mais que o esperado: cadeiras e mesas amarelas com marcas de cervejas estampadas, algumas eram vermelhas com outras marcas, fazendo assim a sintonia do “não tô nem aí pra sua marca, só quero povoar meu bar”, do proprietário, o que não deixava de estar certo quanto a isso, ninguém se importa com a cadeira, ou a mesa. Os velhos jogadores ali ganhando uma boa grana na mesa de sinuca, dos patos, como bom alvo que eram. As coroas vestidas como se tivessem em um parque aquático querendo mergulhar em alguma piscina de porra dos velhos que ganharam o dinheiro ali. O cheiro de urina emanava dos banheiros, que se mixava com o de cerveja impregnado em cada um ali. Eu me sentia em casa.
Dei mais uma olhadela em volta do bar e não acreditei no que vi. Não. Não era possível. Uma jovem, que parecia Londrina, ruiva, magra e de cachecol. Ruiva. RUIVA. Ela sentou no balcão, na outra ponta.
-Uma garrafa de vinho, quente. Por favor.
Ali, na minha vista, com o meu garçom, meu bar. As pessoas não davam a mínima.
Me aproximei.
-Esse vinho daqui não e muito bom não, moça.
-Desculpa moço - ela disse, ironicamente - eu bebo sozinha.
-Mas você é muito bonita pra estar num lugar como esse.
-Quem liga? Você viu alguém ligando? Eu não...
-Eu ligo. – O álcool me atacou – lá em casa você se encaixaria melhor.
-Esperava mais de você, amigo. Com toda essa pose de solitário independente, achei que sairia algo melhor que essa cantadinha. Essa aí eu esperava de qualquer velho aqui. Agora vai lá beber e me deixa beber aqui.
E me afastei.
-Eu tava brincando. – Ela gritou – volta aqui, você também é muito bonito pra estar aqui. Sua casa é longe daqui?
-Um pouco, uns 30 minutos de ônibus.
-Ônibus? – ela riu – vamos andando, o clima tá muito bom pra ser desperdiçado.
Fui só porque ela era ruiva. Eu era um cuzão, morria de medo de ser assaltado, e eram umas onze da noite. Fui andando com ela, e com o cú na mão.
-Então você fica no bar esperando pra conquistar alguém como eu e levar a moça de ônibus pra sua casa?
-Sempre funcionou, mas em geral são coroas fedidas. Mas você, você é diferente. É como ganhar na mega sena.
-Ah, deve usar isso com todas.
Ela sorriu.
Puta
que
Pariu.
Era o sorriso mais lindo, ou um dos mais lindos, que eu já tinha visto.
-Acredite ou não, no caminho pra casa, eu não costumo dizer nada.
-Mas hoje você disse, nossa, tô lisonjeada.
 E ficamos quietos por uns dez minutos. Ela quebrou o silêncio:
-Não vai me abraçar não? Tá frio, babaca, não tá vendo? – E riu de novo.
Abracei-a e senti o perfume doce e vencido, mixado com o cheiro da pele, o que acusava que ela já não tomava banho fazia algum tempo.
Mas aquele cheiro me lembrava minha casa, meu lar. Onde eu queria ficar por muito tempo.
Conversamos mais um pouco, sobre coisas aleatórias, eu já ia ficando desinteressado, quando ela perguntou meu nome.
-Michael, e o seu?
-Se escreve mikael ou Michael?
-Qual a diferença?
-Um te faz um bonitão conquistador, e o outro um dos velhos daquele bar.
-Os dois me definiriam, se quer saber. – E ri. – e o seu, como é?
-Vênus. Se rir apanha.
Eu ri, é lógico. Ela veio me dar um tapa, eu segurei e disse “seus movimentos são lentos demais.”, e a beijei. A boca dela tinha uma sintonia com a minha que eu nem precisei me esforçar pra me encaixar, peguei em sua bunda, apertei com vontade, ela me abraçou mais forte e ficamos nesse amasso por um tempinho. Mas aí vi que era muito tarde e que tinha que andar, antes que achasse algum drogado que roubasse meu celular. Forcei um arroto e ela me afastou.
-Eca. Seu nojento.
Me desculpei, mas por dentro comemorando. “deu certo! Eba!” que babaca eu sou.
Apertei o passo e chegamos em casa.
-Caramba você mora perto no inferno mesmo.
-Aqui é o inferno.
Eu tranquei a porta, e ela tirou o cachecol. Uma gigante cicatriz brotava do seu pescoço, e ela se adiantou à minha pergunta.
-Meu padrasto passou uma faca na minha garganta, enquanto me fazia de refém. Ele levou 3 tiros na cabeça. E eu sobrevivi, essa talvez é a maior tragédia.
Ela tirou as blusas e a calça, ficou só calcinha.
-Quer que eu fique pelada?
-Só se você quiser.
-Seguinte, tô muito cansada pra trepar. Se quiser me ver pelada, fique à vontade. Mas trepar eu não vou não.
-Tudo bem. Deixe-me ver essa boceta aí.
Ela tirou a calcinha.
A boceta dela sorriu pra mim.
-Quer beber mais? – Eu disse.
-Não vai adiantar, cara. Beber mais só vai me deixar mais morta ainda.
-Não vou te comer mais. Só quero alguns minutos de conversa bêbada com você.
-Sua primeira boa jogada da noite. Pega o whisky lá.
Bebemos meia garrafa. Eu estava nu e ela também, embrulhados no edredom. Foi aí que eu percebi os olhos. Os dela. Eram castanhos, ou verdes. Dependia da hora e da minha sobriedade, que oscilava.
Capotamos. Eu ainda tive tempo de fumar um cigarro e observa-la dormindo. Aquilo tinha valido a noite. Deitei de conchinha e capotei. Comecei a sonhar com um boquete, a moça era desconhecida, mas chupava muito bem. Levei um tapa na cara e abri os olhos, e lá estava ela, me chupando, olhando pra mim e rindo de boca cheia. Trepamos, fodemos, transamos e depois fizemos amor. Eu queria passar a vida inteira com aquela mulher. Acabamos as nove da manhã. Ela exausta, eu mais ainda. Ela dormiu e eu repeti o ritual do cigarro. Acordei as quatro. Ela não estava mais lá. Nem minha guitarra. Ela roubou o que eu nem usava. Normal, todos que eu conheço vão embora com o vento. Tomei um banho, me vesti e acendi o cigarro, mais um dia frio. Cheguei no bar e pendurei meu casaco. Quem sabe hoje uma coroa fedida não me faça feliz?

sexta-feira, 4 de abril de 2014

Camisola.


Eu estava sentado à beira da cama, fumando um cigarro, ela, deitada na outra ponta encostada na cabeceira da cama com a camisola verde, eu odiava verde, mas aquela camisola, ela simplesmente purificava meus pecados, justamente pela facilidade de tira-la que eu havia conquistado.
A menina era simplesmente um anjo, pele branca, olhos verdes/castanhos/azuis/negros (como um de um demônio), e um corpo perfeitamente imperfeito, estrias, celulites e algumas varizes, causadas pelo leve atrofiamento do joelho, devido a uma queda no ballet. Mas até essas pequenas imperfeições deixavam ela perfeita, eu não a conhecia bem, só sabia que estava de camisola e sem calcinha, em minha cama.
-apaga esse cigarro e vem me acender.
-mas esse é meu vício, moça.
-não tá afim de se viciar em outra coisa não? -E abriu as pernas.
Foram as duas horas mais felizes que tive em dois anos.
Fizemos uma vez, gozamos mutuamente. Bebi uma garrafa de vinho.
Fizemos duas vezes, só ela gozou. Três cervejas.
Na metade da terceira, o mundo através de mim girou e tudo que pude ver foi a moça, virando um borrão angelical, e tudo se apagou. Vomitei por três gerações, e apaguei de vez. Fodi tudo.
Acordei pela manhã, ela não estava mais lá, só o cheiro de cigarro, boceta e vômito.
Acendi mais um. Acho que se eu não o comprasse, e o forçasse a estar comigo, nem ele estaria.

segunda-feira, 24 de março de 2014

Arte.

Esse é o texto mais rápido que escreverei, não parei pra pensar, não o construí. Apenas parei e escrevi. Essa é a minha vida agora, uma arte, talvez não tão boa, imprevisível e andando conforme a corrente.
Tudo muda tão rápido, tudo se faz e desfaz ao mesmo tempo, como numa música do Zeppelin, ou talvez do Metallica. Espero que quando tudo se estabilizar, não seja tão ruim. E que como uma arte, alguém possa apreciar.

domingo, 23 de fevereiro de 2014

O mediano.




Enquanto eu esperava o moto-taxi, lia um livro legal, na recepção do prédio, eu me identificava com o personagem, que clichê.
Estava frio, muito frio, frio pra caralho mesmo. Nem eu sou tão frio daquele jeito, e olha que eu gosto de frio, digo, de ser frio.
Ele disse “dez horas, mano”, já eram quase meia-noite. Vejam só, passo tanto respeito, que nem o cara que eu vou pagar, chega no horário marcado.
A porra da corrente soltou no meio do caminho, no meio de um monte de drogadinhos, usuários de crack e essa merda toda. Uma coisa me admira nessas pessoas, eles tiveram a coragem de abandonar tudo, abandonaram toda a paz, a família, muitos fizeram sua família ali, os laços divididos em quantas pedras podiam fumar. Mas em contrapartida, todos abandonaram tudo isso, em prol de algo, que os teve por completo. Que inveja, eu queria ter alguém completo, ou até ser possuído por completo, por alguém. Satã seria muito fraco, tanto quanto deus. Gastei cinco cigarros, dois comigo, e três com os noiados: “valeu aê tio”, “pode crê, gurizinho”, “boto fé, ow”. É, até essas pessoas ainda tem o senso de agradecer quando algo lhes é proporcionado.

                                                 
         .....

Mais cedo, no mesmo dia, eu lanchava bolo, com café, suco, pão e requeijão, com gosto de fartura. Fartura não só de mantimentos, de comida, como de afeição. As namoradas as vezes fazem isso.
Assistimos vídeos, ouvimos música, até aprendi a tocar “brilha, brilha estrelinha” no violino, foi uma
tarde/noite agradável, muito agradável.
É, talvez ela seja meu crack.
Talvez eu seja um drogado, mas sem o mesmo senso de agradecimento.
Seu mal agradecido do caralho.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Veias.

Estou cansado. Depois de um bom tempo, estou cansado de verdade, aquele cansaço de dormir cedo e ter vontade de ajustar a vida. "Parei de fumar", "vou dormir cedo", "eu te amo", são mentiras humanas recorrentes, mas quando se tem um dia de cansaço bom, um dia útil de verdade, essas mentirinhas talvez possam se tornar verdade por um curto período, apenas talvez.
E também tem essa garota, essa coisa linda e inteligente, orgulhosa e ausente, ruiva e morena. Apareceu e me fez repensar completamente como as coisas costumam funcionar por aqui. As veias deles aparecem como se fossem algum mapa hidrográfico de alguma ilha paradisíaca e fria, bem fria, branca como a neve. Seu jeito de ser diferente sem se esforçar me encantou mais do que qualquer uma dessas "hipsters/hispsteres" (não sei o plural dessa coisa), de cabelo vermelho ferrugem e cigarro na boca, mas que por dentro não valem nem 1/4 do cigarro que fumam, e na verdade só clamam por atenção. Você não, você tem essa simplicidade, essa autenticidade de gritar quando precisa e quando não precisa, e tem também esses modos, bem comportada, se misturando e as vezes enrolando tudo. Você é você. E é isso que me encanta mais, talvez. Eu não sei quem eu sou, espero que eu possa ser eu o suficiente pra você. Agora são dez da noite e eu já estou com sono, obrigado pelo dia maravilhoso. Espero que possa me alegrar por muito mais dias, e até mais, garota das veias aparentes. Se cuida.