quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Venice, Bitch.


No hotel onde eu trabalhava, que era uma Veneza ridícula, inundada de gente inútil, onde eu simplesmente não gostava de estar perto. Só as mulheres as vezes prestavam, aquelas coroas sedentas de paus e eu tinha um que funcionava, funcionava muito bem por sinal.
O dono era uma comédia, um velho morfético, mesquinho, gritalhão e burro pra caralho. A mulher dele, uma coroa enxuta e siliconada, que tratava quaisquer um como rei e quando precisava, jogava-os no inferno, a vadia controlava o financeiro e o hotel inteiro, pois tinha o controle do velho. E assim, como marionetes, ela humilhava ali, elogiava aqui, xingava acolá, fazia toda essa porra impune, por trás de uma face angelical e lindos olhos verdes. Aquela puta tinha olhos bonitos, profundos como toda a mentira que aquele hotel escorria entre as infiltrações das paredes. Ah, comi aquela puta também.
Em mais uma tarde ordinária de trabalho, eu era o cartão de visitas do hotel, fumando um cigarro na frente do próprio, com um copo descartável de café e um desejo de suicídio, por quão patético eu deveria estar, com toda aquela roupa social preta e branca, e aquela gravata. Um panda do proletariado, uma espécie em extinção, que ainda luta pra sobreviver contra essa sociedade de merda. Mas ali eu estava, fazendo parte daquele organismo vivo, morrendo e apodrecendo junto com ele.
Mas espera aí, eu podia fazer algo! Eu era uma célula quase importante daquela porra. Eu conhecia cada veia, o estomago e o rim do hotel, e o coração principalmente.
Um dia, no turno da noite, me esgueirei entre os corredores, desliguei o gerador e ninguém estranhou, afinal as quedas de energia eram normais naquela espelunca. Subi no padrão geral, e saí cortando todos os fios com uma faca, não fazia ideia do que estava fazendo, mas eu estava, nada dava certo. Peguei meu isqueiro e comecei a simplesmente queimar tudo que se podia queimar ali. Saí correndo e passei na recepção pra avisar meu parceiro de turno, que aquela porra ia se desfazer. Enquanto ele corria pelos corredores escuros, eu voltei pro gerador e liguei a fase de novo. Ouviram-se vários estouros e viram-se muitos clarões, eu acendi meu cigarro, enquanto sentava no ponto de ônibus do outro lado da rua. Demorei 20 minutos vendo o velho e a puta velha agonizando e me gritando do outro lado da rua para chamar os bombeiros. Eu apenas mostrava o dedo médio enquanto ele era comido pelas chamas. Agora a Veneza era inundada apenas de línguas laranjadas, flamejantes e de fumaça.
Welcome to Venice, Bitch.
Acordei com o despertador berrando, estava atrasado de novo pra porra do trabalho.
2 horas se passam.
-Venice Hotel, Michael, Boa tarde, em que posso ajudar? - E suspirei.

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