E ele andava sozinho, somente com a sombra seguindo-o: A sua própria sombra, a sombra do passado que, diga-se de passagem, era do que ele mais tinha medo no momento: A sombra de muitas mortes; de caos; o cheiro da mistura de carvão, enxofre e salitre; do cheiro de suor e sangue seco; das dezenas e, quiçá, centenas de maços de cigarro fumados, cigarros de papel e fumo apenas, não esses cigarros cheios de merda vendidos hoje em qualquer boteco de qualquer lugar, desprezíveis.
Mas pra fazer tudo isso havia um propósito, uma coisa que ele pensava que valia a pena lutar, mas que pena! Por 20 anos ele lutou, matou, trapaceou, torturou, explodiu, estraçalhou, fez barbaridades que, não existem em nenhum diário e nem na mente de ninguém, só em sua própria mente: Genial, doentia.
Era dezembro de 2011, no alto de seus 50 anos ele já se dava conta que por tudo que havia um esforço tinha que haver um propósito, uma razão para levar adiante e justificar, mesmo, tudo que fazemos. Durante uns 30 anos ele lutou na linha de frente, comandou multidões, e ele sabia que cumpria com perfeição sua difícil função.
A área que trabalhava o sisudo e sistemático homem, era a mais caótica pois possuía os caras mais sedentos por sangue, que aprenderam a arte da guerra, não pelo seu propósito de um dia ornar na calma de um mundo pacífico, mas para retalhar quem aparecesse pela frente, retalhar inimigos, cidadãos, crianças, mulheres, quem ousasse aparecer em seu caminho que aparentava incerto e cruel, e de fato era.
Fez-se o inverno. Gélido. Arrebatador. Era frio que como um dia achavam que o céu era, mas agora projetava-se de uma estranha maneira, quente: Que nem um inferno, que na verdade era aquilo que aquele campo de batalha era, um longo e denso inferno.
Logo se via que muitos morriam por nada, e a morte jantava e almoçava junto, se fez parte do atípico cotidiano, ela não vestia preto, e sim camurça, ou roupas de civil com rifles e fuzis em ambas as mãos, era um gostinho da saliva do tinhoso antes de descer direto sem escalas.
Mas depois de todo esse tempo, “tudo teve um fim”, e ele ficava relembrando opacas visões de um passado que deveria ser totalmente esquecido, mas ele não conseguia se desviar e nem matar os horrendos fantasmas de seu passado, afinal, não eram fantasmas? E ele foi se perturbando e se martirizando por todas as atrocidades que cometeu.
Via-se que ele estava mesmo mudando, se converteu começou a comparecer à igreja e expandir o evangelho como se procurasse na lei divina um habeas, corpus, um perdão pela raiva, pelo ódio que sempre queimou e se enfurecia dentro dele, como um vulcão recebendo a dádiva de se expandir com todo o oxigênio de um furacão para poder destruir uma cidade com a velocidade de um sistema linear resolvido pelo sistema de Cramer, que no final o determinante seria igual a zero, isso mesmo: Igual à ZERO.
E ele ficava refletindo:” Será que a paz que sempre foi meu propósito deve ser achada pela guerra, ou ela se encontra dentro de cada um de nós só esperando para ser cultivada e desabrochar? Desabrochar em campos e jardins como as flores, flores que um dia no furor da guerra eu nunca parei pra observar e pisei sem dar a chance de me impressionarem com o espetáculo da vida, vida que um dia eu ceifei sem piedade e como recompensa por ser um dos anjos da morte ganhei um inverno eterno. Mas eu sei que ainda tenho salvação, todos tem.”
E hoje em dia o coronel sabe o valor e se banha toda vez que vê um raio de sol e sempre para e observa a vida se desabrochar, pois ele tem sede de vida. Todos temos que ter.

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